Historial do Passado: Uma afirmação do presente para o futuro
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[EDUARDO BETTENCOURT PINTO]

 

As fronteiras da minha vida estão marcadas pelas estações. Não têm dísticos, sinais de trânsito e polícias fardados e de semblante rígido a pedirem o passaporte sob o foco de luzes fluorescentes. São campos imagéticos e cintilantes, ritos crepusculares, trinado de ausências. São, no fundo, o espaço sem rancor e sem omissão entre mim e o mundo. Quero-o na verdade distante. Como uma miragem misteriosa. Assim não deixa nunca de me intrigar, de me chamar aos seus domínios num jogo de aproximações e distâncias.

No fundo, busco um espaço onde vá construindo os pequenos símbolos do quotidiano. Uma escolha que decerto não atrairá a maioria: dias, semanas e meses perdido num imenso deserto de silêncio, entre livros, música e a família. Acredito que a vida se tornou demasiadamente ruidosa e complicada. E que certos hábitos sociais esbarram muitas vezes com o meu sentido de independência e praticabilidade. Mas, sobretudo, porque a dança de escombros do passado não deixa nunca de atravessar o meu espírito.

A este propósito, gostaria de falar de uma senhora checoslovaca que trabalhou durante muitos anos num hotel de luxo em Vancouver. Culta, idosa, a pobre senhora, que em menina passou pelos horrores da II Guerra Mundial, juntava tudo o que encontrava. Até que um dia o seu cacifo ficou cheio. Passou então a levar as coisas para casa. Quem sabe, em momento de necessidade viria a precisar delas. Inúteis despojos, simbolizavam contudo uma espécie de segurança psicológica da qual não queria (nem podia) prescindir.

Numa vistoria que fizeram certa ocasião aos cacifos, a meticulosa funcionária da Secção de Pessoal, uma loira ferina e magra que levitava como uma marioneta nas carpetes enodoadas da subserviência, com entusiasmo triunfal exclamou:

Olhem, o armazém de uma ladra!

Toda ela tremia. A corrente eléctrica que lhe atravessou o corpo fazia dela um estranho objecto astral. Só não levitou nesse momento porque o seu prazer sórdido, e que lhe causava vertigens abismais, queria-a presa ao chão. Cruzando os braços, afastou-se alguns passos para melhor ver o efeito que lhe causava o inaudito espólio que tinha diante de si. Então abriu muito a boca e mostrou com orgulho, num sorriso alagartado, os alvíssimos dentes. O pequeno séquito de vermes que a acompanhava, secundou-a no entusiasmo. Então elevou-se um repuxo de vozes brutais, em sintonia com um casposo menear de cabeças vazias. Chocaram-se corpos na pressa de ver de perto os objectos tristemente escondidos no fundo de uma caixa alta de metal, onde Valéria, preocupada com o futuro, meticulosa ia guardando os seus medos.

A loira, vendo que a curiosidade dos que a rodeavam ultrapassava os mais lineares códigos de conduta, e pisava sem pudor os limites das suas atribuições, com um gesto ríspido, que deixou a nu o sovaco raspado nessa manhã, reduziu-os à insignificância do seu tamanho hierárquico. Enfiou então as luvas de borracha, agachou-se, e foi metendo num saco de lixo a evidência contra Valéria.

Em resultado disso, a senhora checoslovaca foi despedida. O sindicato, contudo, conseguiu reintegrá-la no serviço. Provou que Valéria não tinha roubado nada a ninguém. O seu cacifo não era mais do que o repositório dos seus pesadelos antigos. Na verdade, coleccionar o lixo dos hóspedes não era actividade passível de tão excessiva medida. O único furto que de facto ocorrera fora o da empresa, ao tirar a Valéria o seu ganha-pão.

A analogia que pretendo estabelecer entre mim e a senhora checoslovaca, tem a ver com o insuperável coleccionar de memórias de Angola. Não vejo, aliás, maneira de as contornar. Sinto-me como o filho que, na infância, foi abandonado pelos pais. Se em certa medida o reter de sentimentos antigos pode obstruir a adaptação ao meio onde se vive, por outro lado - como é o meu caso - possibilita um diálogo constante com aquilo que sou. E que fui. Em certo tempo e em determinado espaço.

Falo de tudo isto porque o meu passado e o meu presente estão unidos no mesmo labirinto. Indissociável conjugação de ressonâncias, resplandecem flamejantes naquilo que sou, nestas pegadas sobre a neve canadiana, nesta alvura onde o meu destino é a sombra do meu corpo no seu curso quotidiano, minguando a distância entre matéria e espírito. Gosto deste país onde vivo, desta generosidade que me recebeu e aos meus pais e à minha mulher, e que deu aos meus filhos um incomensurável espaço de oportunidades.

Quando aqui cheguei, em 1983, Abril ia no fim, os dias chuvosos e tristes. Uma brisa fria prendia-se à janela de onde eu olhava a rua, nessa altura um grande deserto. Foi nesse ano que eu conheci J. Michael Yates, um americano naturalizado canadiano, ex-professor universitário, escritor e poeta. A nossa amizade cresceu como os cabelos brancos que, entretanto, nos foram levando para outras zonas etárias. Um dia disse-lhe:

— Sempre quis ter um tio como tu. A partir de hoje passas a sê-lo.

Foi assim que nos tornamos família.

A ele devo momentos de iluminadas discussões sobre literatura, sobre os altos e baixos da vida, passeios de mota e acampamentos onde até os racoons, com os olhos a faiscarem no escuro, ouviam poesia entre os pinheiros nocturnos. Foi pena terem sido tão ladrões: roubaram-nos o pudim e sacos de pão. Não levaram as tendas porque teriam de carregar connosco às costas.

Foi com o Michael Yates que também aprendi que se pode comer um fabuloso bife à Nova York, acompanhado com vários uísques Chivas Regal.

Um dos sábios conselhos que ele me deu foi o de nos integrarmos o mais possível na sociedade canadiana. Levámos à linha essa recomendação.

Num espaço de quatro anos, mudámo-nos de casa nada menos do que cinco vezes. Quando finalmente nos fixámos em Pitt Meadows, já tínhamos dupla nacionalidade e encontrado, por fim, o vale de montanhas azuis onde, todos os Setembros, as aves passam a caminho dos temperados climas do Sul. A não ser os familiares mais próximos, às vezes passam-se meses sem ver um rosto português.

Sinto no entanto falta desse contacto. São porém as lacunas culturais da comunidade portuguesa de Vancouver, que determinam a minha ausência. Nunca frequentei clubes sociais, com os seus jogos de cartas iluminadas pelas luzes foscas da solidão acompanhada. Gosto de livros, de jornais e revistas, de ouvir com nitidez a voz do interlocutor sem que esta, difusa, morra nos cantos das paredes, contaminada pela irritante poluição sonora de um aparelho televisivo, descaído do tecto.

Faltam-nos, na verdade, jornais comunitários e programas de rádio com qualidade. sobretudo, acesso sem restrições à RTP-Internacional. Os idosos, que não se acham à-vontade com o inglês, são de todos os mais carentes. Com limitadíssimas opções sociais, geralmente adstritas ao círculo familiar, movimentam-se num espaço tão fechado que se instala, em alguns casos, o agridoce de uma existência aprisionada no conforto material, enquanto o espírito se vai esfarelando na ausência de si próprio. Faltam-lhes as notícias da sua terra, as imagens e os rituais da sua cultura. Falta-lhes, em suma, a voz daquilo que são.

Aos jovens — e não só —, aparenta-se-me imprescindível a existência de um lugar de convívio sócio-cultural, em edifício próprio, com salas de conferências e para o ensino do português, e uma biblioteca de autores lusófonos. No que diz respeito ao aspecto social, seria de se pensar num salão amplo, de convívio, que poderia inclusive rentabilizar-se através do seu aluguer ao público em geral. É altura, aliás, para que as autoridades portuguesas revejam as atribuições profissionais dos seus funcionários consulares. Em casos como o de Vancouver, com uma comunidade dispersa, haveria a necessidade de alguém que pudesse organizar e dinamizar estas ideias. O voluntarismo não tem poder de resposta eficaz para todos os desafios que se colocam a uma pequeno grupo de indivíduos. Por muito interessados que estejam na propagação dos seus valores culturais.

Manuel Azevedo é um exemplo notório — entre outros —, dos que se interessam pela sua comunidade. Nascido na ilha do Pico, foi para o Norte do Ontário, perto do Lago Superior, com sete anos de idade. Nessa altura havia muitos portugueses empregados nas minas e nos caminhos-de-ferro. Com dezasseis anos mudou-se com a família para Toronto. Desde cedo se interessou por questões sociais. No Colégio onde estudava foi eleito Presidente do Conselho de Estudantes. Sob a sua direcção contam-se, entre várias iniciativas, a de terem iniciado uma campanha para se ensinar português nas escolas canadianas. Mais tarde, em 1972, foi membro do Comissariado da Defesa do Emigrante. Terminado o ensino secundário fez uma pausa nos estudos, trabalhou e dedicou-se à política. Em 1979 e 80 foi candidato às eleições do Parlamento pelo Partido Novo Democrático (NDP). Iniciou então uma campanha de sensibilização, junto da comunidade portuguesa, para as vantagens em adoptarem a nacionalidade canadiana. Sobretudo a de poderem exercer, com plenos direitos cívicos, a sua influência política como cidadãos. Ofereceu ajuda a portugueses com problemas sociais e laborais. Em 1982, com 26 anos, entrou para a Universidade de York para cursar Direito. Envidou, em 1989, esforços no sentido de organizar uma associação de advogados portugueses mas não conseguiu. Nessa altura já havia cerca de trinta advogados de origem portuguesa em Toronto.

Ao acabar o curso, trabalhou cerca de um ano como advogado. Decidiu então ir para Inglaterra estudar. Matriculou-se na Universidade de Londres (London School of Economics) situada, curiosamente, no número 10 da Portugal Street. Quando regressou ao Canadá, abriu um escritório de advocacia em Toronto. Esteve pouco mais de um ano, porém. Já casado e com filhos, decidiu viajar com a família durante nove meses pelo Canadá e México, radicando-se finalmente em Vancouver. Como ilhéu, sentiu-se irremediavelmente atraído pelas montanhas e pelo mar.

Ao princípio, não tinha intenções de praticar Direito mas servir de guia turístico. Para o efeito dedicou-se a estudar a História local nos Arquivos da Cidade. Interessou-se sobretudo por Gastown, uma área típica de Vancouver, criada pelos ingleses em 1870. (Vancouver viria a ter o estatuto de cidade em 1886, e a província da Colónia Britânica foi integrada no Canadá em 1871). Pesquisou também a China Town. Foi aí que lhe apareceu o nome Portuguese Joe, um aventureiro picaroto que fugiu de um barco de pesca à baleia, com vários amigos, e nunca mais regressou a Portugal. Aqui se casou com a neta de um chefe índio. Elizabeth Walker, a sua filha primogénita, nascida no Stanley Park em 1864, foi a primeira criança de sangue europeu a nascer em Vancouver. O Parque Stanley, hoje uma das maiores atracções turísticas da cidade, tinha nessa altura três aldeias índias.

Foi em 1930 que Elizabeth Walker, já viúva, e a viver num quarto modesto na Cambie Street, conheceu Major Matews, o arquivista da cidade de Vancouver. Dessa amizade resultaram mais de dez anos de entrevistas em que o arquivista foi anotando os relatos sobre a vida do pai de Elizabeth, Joe Silvey. Esses dados históricos constituem hoje um acervo importantíssimo e imprescindível de Vancouver.

Portuguese Joe, conhecido por Joe Silvey mas cujo verdadeiro nome era José Silva Simas, nasceu na Calheta do Nesquim em 23 de Abril de 1828. O certificado de baptismo foi recentemente descoberto por Manuel Azevedo, que tenciona escrever um livro sobre ele. Filho de um pescador, Joe Silvey foi o pioneiro da pesca do dog fish (tubarão pequeno) e da baleia na Colónia Britânica. Segundo se consta, a pesca possibilitou-lhe, e à família, um bom nível de vida. Foi ele também que construiu o primeiro barco, The morning star, em 1864, vivia ainda no Stanley Park, em homenagem, crê-se, ao barco do mesmo nome que fazia carreira entre os Açores e New Bedford.

Em 1858 um barco, The Beaver, saiu de Vancouver para S. Francisco com um carregamento de oiro. A notícia, como um rastilho, foi-se espalhando rapidamente pela Califórnia. A partir daí começaram a aparecer em Vancouver aventureiros em busca de riqueza. Foi numa dessas levas que apareceu Portuguese Joe e os seus amigos. Na cor sépia dessas páginas antigas, Manuel Azevedo descobriu outros patrícios, contemporâneos de Portuguese Joe: John Silva que vivia em Vitória, na ilha de Vancouver, em 1860 e era proprietário de uma loja; em Salt Spring island, no mesmo ano, viviam os irmãos Manuel e José Bettencourt, o neto Reed Bettencourt e dois irmãos John e Manuel Norton; Peter Smith, mais conhecido por «Peter-the-Whaler», e Gregório Fernandes foram companheiros de Joe Silvey. Gregório Fernandes, por exemplo, teve a primeira loja de hortaliças em Vancouver, em 1870, na Water Street, sobre pilares aquáticos. Era originário da ilha da Madeira e nunca constituiu família. Mais tarde, em 1874 e quando adoeceu, um sobrinho, José Gonçalves, foi viver com ele para tomar conta dos negócios.

Desses pioneiros, o único que regressou a Portugal foi um mariense, em 1890, enviuvado. O filho, José, que começou a escrever um diário com 14 anos, foi com o pai para Santa Maria mas acabou por regressar ao Canadá dois anos depois. Faleceu em Vancouver com 87 anos de idade.

Estes dados, apresentados aqui linearmente, foram coligidos de uma entrevista que fiz a Manuel Azevedo, em Gastwon, perto do local onde Portuguese Joe teve o seu saloon, Hole-in-the-Wall. No outro extremo da cidade está o Stanley Park, e a história por escrever dos nossos pioneiros.

Esta cidade, costumo dizer, é uma floresta de chuva. Penso até que a sua alma, de peixe perdido, vagueia nas águas submersas de uma lenda, na qual o olhar melancólico dos homens, desatentos aos prodígios e à generosidade da terra, eternamente prolongam sobre si próprios a escuridão da nostalgia.

Enquanto nos íamos afastando pela Hastings acima, pensava num momento junto ao mar, sentado num banco de costas para o Stanley Park.

Ouvia a sibilante passagem do vento entre as árvores. Um esquilo parou a alguns metros, ergueu o corpo e juntou as patas dianteiras numa breve oração ao silêncio. Ao meu lado, num pequeno saco, guardava um caderno de notas. Tinha diante de mim a cidade num estado lânguido e misterioso; o canal, cinzento, onde se juntavam as neblinas mais densas, parecia adormecido sob um torpor estranho. Era nessas redes frias que se perdiam, inaudíveis, barcos e gaivotas. A distância, cadente, parecia aproximar-se de mim à medida que o sol, descobrindo-se, atirava sobre as minhas mãos um lenço de luz.

Mal sabia eu que no silêncio desse dia, espelhado nas águas do vento, vozes antigas chamavam por mim. Será por elas que um dia regressarei ao passado. Para que não morra no infinito langor da memória sem consequência.