UM POEMA e uma CARTA
de EDUARDO BETTENCOURT PINTO
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Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,
Califórnias perdidas de abundância.
Ilha, Pedro da Silveira
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Pedro da Silveira, como provavelmente mais ninguém, «captou» toda a história açoriana em cinco linhas de verdade e sobretudo de poesia, em cinco linhas de raiva e aceitação resignada, em cinco linhas de apavoramento paralisante e, dialecticamente, de chamamentos de força à luta por e contra tudo isso.
É essa a dualidade irremediável da Ilha cativeiro geográfico e existencialista e placa de salto para o mundo exterior. Ficar e partir. Estar perto e estar longe. São estas as palavras significantes de toda a nossa escrita. Na Distância Deste Tempo, intitulou Marcolino Candeias os seus poemas. Longe É Aqui, escreveu uma das nossas poetas Lúcia Costa Melo. Não os únicos, por certo, mas são aqueles que se tornaram ou se tornarão também autores paradigmáticos da nossa literatura. José Martins Garcia, tanto na sua obra poética e ficcionista como no seu trabalho crítico e teórico, já desenvolveu toda esta temática: a busca incessante de outra ilha, querendo dizer, penso, de outra realidade, de outra convivência, da descoberta também perpétua de que daqui não somos inteiramente e quando lá chegarmos descobriremos que talvez seja ainda mais além. Em suma, é também na escrita açoriana que a literatura do país português trava um diálogo incessante com o aparente estatismo da história aqui vivida e com as possibilidades infindáveis, uma vez mais, de descobertas de novos espaços e novas maneiras de ser e estar.
A aldeia global sempre existiu nas nossas melhores páginas. Têm-na vivido os que partiram (necessariamente) e têm-na vivido os que ficaram (por inquietação irreprimível e pela imaginação de uma memória colectiva feita e refeita de andanças vitais). Se o lugar sempre definiu qualquer versão do universalismo humano, os nossos escritores e poetas, mais do que insistir em utopias ideológicas e presas a uma geografia, têm sido forçados a errâncias de toda a natureza, a multiplicar, conscientemente ou não, a experiência de todas as suas e nossas ilhas em mar e em terra, por assim dizer, ou lembrando a visão dupla de João Teixeira de Medeiros, Ilha em Terra. Outras dessas vozes – e eis aqui o propósito desta nota – é Eduardo Bettencourt Pinto, poeta e escritor de profundas raízes açorianas com um passado em Angola nada menos significativo. Actualmente residente no Canadá, poderá aí ter encontrado uma outra saída ao destino geográfico que são os Açores, mas a dualidade dessa errância constitui a força de uma obra que merece uma atenção muito mais sistemática do que tem acontecido até à data. Desde As brancas passagens do silêncio, Emoção, Mão Tardia ao seu (mais ou menos) recente A Deusa da Chuva, Bettencourt Pinto tem construído e reconstruído as utopias possíveis, mas a busca e os regressos são contínuos. Angola, os Açores e, agora, o Novo Mundo são «ilhas» que se confundem em páginas de vastas «peregrinações interiores» e geográficas. «Ilhéu», de A Deusa na Chuva, livro que contém um ciclo denominado Nordeste, s. Miguel:
Tem na boca um cigarro de milho, um puído casaco
americano sobre o inverno do corpo. Sentado numa pedra,
parece o mar: ressonâncias de fráguas moldam-lhe o rosto, as
mãos voam como gaivotas perdidas sobre inquietas claridades.
[Da água herdou o mistério, insuspeitados destinos. Descendo do
vento, não regressa mais, ávido segue o
apelo da distância, o curso das nuvens e tempestades.
[Mas este homem, que teve uma pátria de sombras
em cada esquina do mundo, voltou.
[Pouco tem: uma janela em ruínas, aberta para
o mar onde dormiram alguns pombos bravos. Exíguo,
no entanto imenso – o paraíso começa aqui.
[Ele conhece este mel, os favos transbordam na sua idade,
as maças amadurecem com a música de abril,
rumores de moinhos.
[Este pedreiro do silêncio molda na voz das coisas
a forma branca do poema.
Que há aqui uma continuidade intertextual, histórica, e um interiorismo irrequieto tanto quanto o poema de Pedro da Silveira como praticamente toda a nossa escrita açoriana, não (me) restam dúvidas. A existência e o sentir de toda uma comunidade será talvez a soma de cada poeta seu. Creio que a literatura é a história, ora redita ora apócrifa, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, de um povo e do seu espaço ou espaços territoriais – e muito mais dos seus espaços imaginários. A poesia também é uma autobiografia individual e colectiva. Pega em momentos clarividentes do poeta, e volta a traçar a linha comum de vivências, de origens e de destinos marcantes.
«Daqui – disse-me Eduardo Bettencourt Pinto em carta enviada da costa do Pacífico canadiano – te escrevo, com um cobertor de chuva sobre os ombros. Às vezes queria essa luz, a grande, branca luz da Ilha nos meus passos matinais, ou o som, quase ao fim da tarde, dos meus antigos dias ilhéus. E ainda hoje, neste país, depois de tantos anos, não sei explicar esta ausência que às vezes dói, este inusitado sentir de náufrago dentro de uma folha que esvoaça de saudade num céu de nostalgia. Mas aqui estou, consciente que as palavras são um pouco o país em que me criei, a valsa, dum povo que tenho, a medo, a cantar a mitologia dum dia vindouro. Assim, entre a interminável savana e o infinito mar açoriano, criei a minha saudade. Às vezes é andorinha, outras gaivota.»
Para ti também, meu caro Bettencourt Pinto, saudades sem fim. Saudades para ti, para todos vós, para todos nós em busca permanente de pátrias reais, com e sem geografias. Esta aqui, a meio mar, é uma delas e é muito tua. Como dizes em outra parte, «Do mar chega a ausência».
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