Menina da Água
de Eduardo Bettencourt Pinto

[Urbano Bettencourt]








á sensivelmente vinte anos encontrava-me em Lisboa, quando aí começaram a chegar-me os primeiros sinais e também os ecos da poesia de Eduardo Bettencourt Pinto: em edição individual ou através de volumes colectivos, pude eu aperceber-me (e os leitores igualmente) de uma voz poética em organização e à procura do seu próprio timbre e onde muito nitidamente se detectavam os traços de uma atenção e,  mais do que isso, de um fascínio pelo mundo sensível, pelo espaço e os seus elementos concretos.

Mais ou menos por essa altura, o nome de Eduardo Bettencourt Pinto surgia em Ponta Delgada associado às revistas Aresta e Memória da Água-Viva[i] e um pouco mais tarde encabeçaria, juntamente com o de Laurindo Cabral, o Suplemento Literário “Seixo”[ii], do jornal Correio dos Açores, em tudo isso se evidenciando, afinal, um processo recorrente da história literária e cultural do arquipélago, que é o de os escritores criarem e assegurarem os sues próprios “espaços de respiração”, através dos quais se façam ouvir e, simultaneamente, possam aceder à palavra dos outros. Quem se der ao trabalho de percorrer a imprensa açoriana desde o século passado não terá dificuldade em observar a persistência dos seus espaços culturais e literários, bem como a forma descomplexada com que  eles souberam olhar para o seu contexto imediato sem perder de vista os mundos mais vastos para lá dos horizontes, tornando-se lugares de encontro e de convivências diversificadas, até mesmo “mesa de amigos”[iii], às vezes separados por milhares de quilómetros (o caso do suplemento “Glacial”, de  Angra do Heroísmo, dirigido na sua fase final por J. H. Santos Barros, Ivone Chinita, Carlos Faria e David Mestre, os dois últimos a residir em Lisboa e Angola, respectivamente, pode ser um exemplo-limite).

Num dos livros iniciais de Eduardo B. Pinto encontramos os seguintes versos:

Nunca me esqueço que vim do sul,
de uma casa simples onde as tábuas das janelas
eram diariamente molhadas por mágico crepúsculo



que podem ajudar-nos a identificar algumas das linhas de força da sua poesia, entretanto acrescida de outros títulos, e a detectar nela certos núcleos recorrentes e movimentos que a atravessam em várias direcções.

Aquilo que de imediato aí nos chama a atenção, até pelo destaque advindo da sua localização, é o relevo concedido  à memória como função constituinte do sujeito poético (repare-se na força do advérbio “nunca”), a sua capacidade de tornar presente o espaço situado num ponto originário de um percurso, de uma viagem que a forma verbal “vim” claramente indica. Sabemos hoje quais são os concretos lugares do “sul” aqui apenas indiciados de forma genérica e que habitam essa memória profunda, prontos a manifestar-se à superfície do poema como aflorações de uma realidade transportada ao longo do tempo longe do olhar. É talvez em Emersos Vestígios que de modo mais recorrente começam a manifestar-se as imagens explícitas do sul enquanto lugar solar de ausência e deslumbramento (em íntima relação com o título), ao mesmo tempo que aí encontramos, no poema de abertura, a primeira referência a Alebag (mitificação poética de Gabela); depois disso, A Deusa da Chuva acentuará  esse pendor para a referenciação com duas sequências de poemas sob a designação de “Salinas, sul de Angola” e “Alebag, sul de Angola”, a que um novo espaço e a sua memória vêm juntar-se na sequência “Nordeste, S. Miguel”.

Poder-se-ia ser levado a pensar que a explícita referenciação geográfica e toponímica conferiria a esta poesia uma acrescida função representativa e documental, empurrando-a para os caminhos planos do mero descritivismo físico e realista; mas não: nela, um conjunto de persistentes e concentradas imagens sensoriais (sol, frutos, folhas, flores, ramos, água, orvalho, música, por exemplo) está ao serviço da descoberta do “outro lado” das coisas e dos pequenos gestos do homem, ao serviço da revelação do seu encantamento, do mistério que ilumina o quotidiano para lá das suas sombras e lhe dá sentido e fundura. Além disso, esta poesia faz-se coma perfeita consciência da distância que vai  desses lugares reais ao outro lugar do poema, que vai do passado vivido ao presente do texto que o diz, ou seja, a escrita cumpre-se sobre uma ausência e uma perda; daí o sentido luminoso da poesia de Eduardo Bettencourt Pinto, mesmo quando atravessada por uma leve nostalgia que se insinua por entre o silêncio de Setembro e o declínio do Outono.

No novo livro do autor, Menina da Água[iv],  encontramos alguns desses procedimentos e “compromissos” poéticos. Mas vale a pena começar com uma citação:

Sobre o mar, escondido nestas palavras, há o volume branco das casas nordestinas, a passagem alta das ervas, o olhar de relance que retém o prodígio, a fragrância e a dorida alegria de suas gentes. Aqui me sento à mesa dos seus ritos, cumprindo o dever e o abalo rasgado da poesia. Não conheço outro mundo que não este que se ergue do verbo, rente à terra, bordeado de água, tão breve, no entanto toda a minha vida.[v]

Mesmo sendo certo que a poesia não se explica, a verdade e a importância deste fragmento situam-se no facto de nos virem desvendar as motivações mais remotas dos textos deste livro, a sua íntima e profunda ligação a um lugar que é o Nordeste, embora possamos não chegar a encontrar neles uma directa topografia, os locais de uma geografia imediatamente verificável; porque essa revelação é inseparável de uma forte “consciência poética”, da noção de que as palavras não são o real, “escondem-no”, e da consciência de que os ritos a que o poeta se entrega não são mais do que um processo de mitificação, uma forma de repetição pelo verbo. Deste modo, é sobretudo um mapa de afectos aquilo que aqui se constrói e onde se revela o território da infância, o brilho repentino e breve da sua luz, mas também as suas sombras e saudades, a esperada voz da mãe, o silêncio das casas, o rumor das aves, as mulheres junto ao pão — em suma, os sinais e os gestos  que levam o poeta a eleger o Nordeste como esse espaço-tempo primordial que cada poema reinventa na densidade e na espessura da sua linguagem:

No Nordeste, essa ilha de exóticos esplendores, contemplei o princípio das coisas e nele atravessei os dias que me faltavam. (p. 13)

Essa é uma reinvenção que ocorre em paralelo com a reinvenção do próprio Poeta e dos seus regressos: «por aqui, nesta íngreme enseada de palavras,/ alcanço o ardor destas terras» (p.17); eles dão lugar à celebração dos grande mitos da Luz e da Música (também dos seus contrários, a sombra e o silêncio), da Água e do Ar, e onde um insistente diálogo e a convocação da voz de um «Tu» trazem ao interior do poema os dados da contingência e de uma certa circunstancialidade que, em último caso, conduzirão sempre à verificação de uma ausência irremediável:

Corres entre o rumor do mar
até ao fim da memória.
Tudo parte: os vultos distantes
dos teus mortos,
a tia que enxotava borboletas no retrato,
a primeira carta americana.
Corres pela água arregaçando o vestido e perguntas
o que é a distância.
Não posso responder ao eco do meu próprio nome. (p. 37)


“O verdadeiro poeta descobre novas variantes da sensibilidade, que podem ser adquiridas por outros. E, ao exprimi-las, ele contribui para o desenvolvimento e o enriquecimento da língua que fala”, escreveu T. S. Eliot[vi]. É por isso que eu me sinto grato ao Eduardo Bettencourt Pinto pela sua poesia destes anos, com a qual ele nos tem revelado a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano, ao mesmo tempo que com ela fomos descobrindo outros sentidos para a língua que falamos.
<(1997)



[i]Com edição semestral, Aresta publicou-se entre 1980 e 1984 (número 7/8), sob a direcção do próprio Eduardo Bettencourt Pinto e de Emanuel Jorge Botelho, que asseguraram igualmente a edição do n.º 7 d’A Memória da Água-Viva (1989), que se vinha publicando em Lisboa desde 1978.
[ii] Do Suplemento “Seixo” saíram oito números, entre 13/6/1982 e 10/4/1983.
[iii] Título de um livro de Pedro da Silveira que reúne traduções suas de poesia (1.ªed, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986; 2.ª ed., Assírio & Alvim, 2002).
[iv] Eduardo Bettencourt Pinto, Menina da Água, Ponta Delgada, Editorial Éter, 1997.
[v] “Explicação”, in Menina da Água, pp. 12-13
[vi] T. S. Eliot, Ensaios de Doutrina Crítica, 2.ª ed., Lisboa, Guimarães editores, 1997, p. 61