As cinzas de África numa fisga
Eduardo BETTENCOURT PINTO
1. Fecho a porta de casa ao branco Inverno canadiano. Nos templos da memória, uma a uma, vêm poisar as aves do Sul. Não cantam. Nos velhos ramos do Tempo aguardam, mudas e letárgicas, o clarear de um novo dia. É assim: recordando, as imagens tornam-se em estátuas breves. Só as palavras, as que ainda andam de calções e não envelheceram com as sombras do Mundo, lhes dão vida.
2. Agora viajo pela África dos espaços cibernéticos, isto é, nas páginas dos jornais. Apesar de cómodo, torna-se precário. O pó sanguíneo das picadas não fica na minha roupa. Nem o odor alto das figueiras-da-índia, que me enchia o peito, misturado com o prodigioso néctar da terra. As recordações passam, fugidias como o zumbido sardónico da mabounga, sobrevoando os charcos das chuvas, as mais antigas. Só o azul-turquesa do mar, magnífico e cintilante, guardado numa fotografia, ressoa ainda no coração.
África corre-me num tropel de frases abrasadas, sob a lânguida luz do candeeiro. Caída como um trapo de silêncio, é um grito que perdeu o eco no ecrã do computador. Os olhos cansam-se lobrigando os caracteres. Entre a placidez das imagens não oiço a chuva, dengosa, a resvalar dos telhados de colmo. Ou o tanger nupcial das marimbas ao longe, cortando de suspiros os espaços, numa altura em que o crepúsculo se enredava como cobras nos ramos dos embondeiros. As bessanganas, ai-uê, lindas e altivas, rumorejando os panos do corpo com os seus passos voluptuosos na nossa Luanda de antigamente, envelheceram.
Continuo a clicar nas páginas à procura de uma palavra fulgente, dessas que cantam entre os dedos, serenas. Responde-me um emudecido clamor electrónico, com guerras, pestes, fome (o fechar abrupto das celas onde se encarceram jornalistas e com eles a ciciante e amordaçada voz da liberdade), corrupção, o andar coxeado duma criança amputada perdendo-se no pó da tarde. As frases, que a cada batida do rato vão desaparecendo à minha frente, parecem fugir ao dedo como uma alcateia de lobos sanguinários.
3. O outro dia, África tinha um talhe diferente: o belo rosto de Anne Stone, no National Post. Olhava, talvez, uma linha de sombra nas mãos espalmadas e levitantes, de onde se escapava, numa pequena nuvem cinzenta, o fumo do cigarro. Estava num parque, sentada num banco. Abraçada por um casaco grosso e escuro, a boina escondia-lhe os cabelos. Tinha uma cor de Inverno na face, lábios sensuais e escarlates, de um contraste tão grande com a palidez do rosto que fazia lembrar uma chama que, de repente, emergira da neve e lhe beijara a boca. Junto de si, e de trás da câmara escutando com o gravador ligado, o jornalista registava o motivo do seu agravo, agora sob o clangor voraz dos media: Anne Stone afirmava ter escrito, com a excepção das últimas vinte páginas, o livro Notes from the Hyena's Belly - Memories of My Ethiopian Boyhood, de Nega Mezlekia (N.M. ).
Uma biografia romanceada e de cariz histórico-social, este título é o primeiro deste autor, etíope, radicado agora em Toronto. A sua estreia no mundo da literatura foi de arromba, nada menos que o prestigioso prémio Governor General do Canadá, no género "non-fiction", no montante de 15 mil dólares, atribuído em Novembro de 2000. Anne Stone, também escritora, já com três livros publicados ( Hush, Jacks: a gothic gospel e Sweet dick all) apesar de terem sido aplaudidos pela crítica, não goza ainda da popularidade de, por exemplo, Nino Ricci, italo-canadiano, agora casado com a luso-canadiana Erika de Vasconcelos, autora de dois romances cujo primeiro, My Dear dead Ones já se encontra traduzido para o português.
Nega Mezlekia, profundamente perturbado com o escândalo despoletado pelas alegações da sua revisora (copy editor), pôs o caso no tribunal. Contrapondo-as, disse que apenas a tinha contratado (20 dólares/hora; cerca de 2800$00) para assinalar partes do texto onde detectasse problemas de gramática, e não propriamente relacionados com a estrutura da narrativa, já que o inglês, não sendo a sua língua de origem, apresentava, como é óbvio, algumas discrepâncias. Não era, em suma, um caso de "ghostwriter", como são conhecidos os autores que abdicam dos seus direitos por via de um contrato com alguém a fim de lhes escrever um livro.
Existem, consta-se, casos de verdadeiros "ghostwriters" que, apoderando-se de mãos inábeis, as transformam em prosadoras de alto quilate. O mais notório passou-se nos Estados Unidos, em St. Louis, corria o ano de 1913. Pearl Curran, inculta, foi aparentemente "inspirada" por Patience Worth, uma inglesa do século XVII, morta nos Estados Unidos às mãos dos índios. A "contribuição" do fantasma, fecunda, resultou em vários romances publicados. A escrita de Pearl Curran denotou, curiosamente, uma grande diversidade estilística e um profundo conhecimento de História, em contradição com o precário nível cultural da escritora.
4. Como se não bastasse, o sal da intriga não ficou apenas circunscrito à questão da autoria do livro. Extractos de alegadas cartas enviadas de Nega a Ann Stone, em tom ameaçador e a cair, em certas passagens, num bizarro lamaçal de adjectivos, foram igualmente publicados. Os dados do jogo, atirados com toda a veemência na mesa pública, tiveram o efeito de uma crucifixação.
Anne Stone alegou ainda ter em sua posse um inédito de Nega Mezlekia (I Can't Recognize Myself), no qual este descreve o plano de um massacre a vários professores e administradores da McGill University, de Montreal, onde o escritor cursou engenharia. O motivo para tal tresloucado intento estaria em sequência do desagrado de N. M. ao modo como a sua tese de doutoramento tinha sido recebida pelo corpo académico. Ainda por acabar, o manuscrito (segundo explicou Nega quando instado sobre este assunto) é, aparentemente, ficção. A McGill, alertada pela notícia, tomou logo a iniciativa de investigar o caso, através dos seus advogados. Poucos dias a seguir, fechavam o assunto com um encolher de ombros. Não havia ali matéria judicial.
Que imbróglio. Se inocente, pobre Nega, pensei. Um homem que vem de África (como tantos que conheço, e alguns meus amigos), geralmente foge do Inferno. Chega aqui com lágrimas escondidas nas mãos, a olhar para trás, molestado pela voraz sombra do pesadelo. Jovens, e menos jovens, casais com filhos, aportam todos no cais generoso deste país, que os escuta, acolhe e ajuda nos primeiros passos de uma vida digna. Com eles por vezes me junto para falar dos sonhos que os senhores da guerra mataram. Como latino-africano que sou, os dramas de África tocam-me particularmente fundo, como uma erupção de gritos. Que fazer nesta situação? Devem-se comprar livros como diamantes. Nunca por motivos ligados a estéreis ostentações. Deveria comprá-lo? Após alguma hesitação, conclui que não fazê-lo seria deixar morrer no amorfo da intriga uma oportunidade de conhecer um pouco mais parte da conturbada História de África do famigerado século XX.
5. Jijiga, árida, rodeada de montanhas, vento seco e o interminável choro das hienas, onde até os mais "fracos ventos criam demónios", foi o berço de Nega Mezlekia. Ao longo de 351 páginas o autor, sem cair no dócil fluir da hipérbole ou do sentimentalismo de quem analisa as coisas à distância, faz um relato paciente e detalhado da sua infância e juventude, pintando com traço firme o seu percurso existencial, e o da sua família, no quadro mitológico, político e social do seu país. Logo nas primeiras páginas nos dá conta de quão violentos e difíceis foram os seus primeiros anos escolares. A sua animosidade em relação ao professor Alula (um homem perverso cuja metodologia de ensino consistia na violência física e verbal, e que era, em Jijiga, o único detentor de um escravo, um pobre homem que vivia, sem vida, sob o tecto da sua arrogância, com a mesma integridade que a sua fúria despótica nutria por um insecto…) é detalhada com a minúcia de quem ainda se vê perseguido pela silhueta de um pesadelo.
Vergastados amiúde com uma chibata de pénis de touro, ou voando pela janela sob o impacto de um murro, crescer nos bancos da escola, um edifício rudimentar em cujo tecto cabiam todas as estrelas da imaginação, era um martírio. Livre, somente o pó seco que o vento lhe trazia aos pés, a caminho de casa e dos braços da mãe, uma mulher zelosa e arguta mas cujas crendices (acreditava que Nega estava possuído por demónios) o levara a um médium, e que o obrigara a rituais de exorcismo algo excêntricos, como envergar a pele de um bode de tamanho extraordinário, morto apenas com esse inverosímil fito.
À medida que as páginas iam correndo sob os olhos, me ia afastando do cada vez mais insalubre motivo que me levara a descobrir este livro. A África negra, que registou a sua primeira independência com o Gana em 6 de Março de 1957, sobretudo pela dedicação extraordinária de Kwame Nkrumah, um ganês culto e aguerrido que abdicou de uma carreira académica nos Estados Unidos para se dedicar à causa da Independência, nunca parou de claudicar nos sinuosos e abruptos caminhos do terror, da morte e do retrocesso económico e social. Depois que os países coloniais começaram a ceder as rédeas do Poder, criaram-se 54 países, com uma população aproximada em 700 milhões. A Etiópia, que viria a ser confrontada por uma guerra fratricida com a Somália, iria, como muitos outros países no Continente, a ser vítima de um novo colonialismo, agora subtil e tão nefasto como o primeiro. As ideologias, em alguns casos, ao abrirem as comportas da guerra possibilitaram a "ajuda amiga" de países como a União Soviética de então, facultando armamento em números escandalosos, conselheiros militares e as vidas ao desbarato de milhares de jovens cubanos. No conflito, por exemplo, que opôs a Etiópia à Somália, a U.S.S.R chegou ao cúmulo de providenciar armas a ambos os países… Os Estados Unidos, por seu turno, não ficaram atrás, apoiando regimes arbitrários desde que os mesmos defendessem os seus interesses.
O imperador Haile Selassie (H.S.), deposto em 12 de Setembro de 1974 por um golpe de estado dos militares, não chegou a viver um ano. Asfixiado com uma cabeceira na sua cela, onde esteve cativo esse tempo todo, o velho monarca, com mais de 80 anos de idade, frágil e doente, sucumbia sob a pressão de mãos impiedosas. A seca de 1972 terá originado essa avalanche de eventos. Selassie, ao tentar esconder a grave crise do país, deixou que sucumbissem, em consequência disso, mais de duzentas mil pessoas. Quando chegou a vez dos militares passarem pelas mesmas privações que a população, o cenário político mudou num ápice. Estranhamente H.S. tinha, aferrolhada em luzidios cofres suíços, uma fortuna avaliada em 1.6 biliões de dólares americanos. Apesar dos meios económicos de que dispunha, só a ajuda internacional viria a pôr fim à terrível situação. Poder-se-á especular para aonde foram parar os 350 milhões de dólares que os Estados Unidos, entre 1952 e 1974, agraciaram a Etiópia, mais de metade das verbas atribuídas ao resto da África Negra.
A Junta revolucionária que se instalou no Poder revelaria uma face horrenda e inaudita: fuzilamentos sumários em massa, tidos como "exemplares". Nessa campanha sanguinária e despótica, o pai de Nega Mezlekia não foi poupado. Um simples funcionário governamental, sem provas e nem sequer a mais linear investigação, declarado participante do regime deposto, caiu, como um pombo no tiro ao alvo, sob a pontaria de um pelotão. Suspeitando que o mesmo destino lhe estava reservado, N. M. optou por se juntar às forças de guerrilha, nómadas somaleses. Com ele seguiu um amigo de infância, Wondwossen, que iria perder a vida pouco tempo depois. Não tardou que Nega, decepcionado com a sua experiência decidisse, com um pequeno grupo, fugir das orlas guerrilheiras e entregar-se aos militares governamentais. Graças a uma amnistia, nada lhe aconteceria.
A mãe de Nega, poucos anos depois, viria a perder a vida num autocarro, impiedosamente metralhado por um desvairado grupo de somaleses, opostos ao regime. Nessa fatídica manhã, Nega, então jovem estudante da Escola de Agricultura de Alemaya, acordou às 5 da manhã, suado e com tremuras. Na sua alma ecoavam para a eternidade os tiros da barbárie.
Fechando o livro, neste domingo em que o sol nos surpreende como um milagre, fica-me a profunda melancolia desta leitura. Há um demónio a mover-se no coração do Mundo. Como um sílex do Mal, que se transfigura e reparte em mil formas em nome de um vazio, que é o absurdo pelo qual a mente dos déspotas, dos assassinos e dos loucos se regem, impunemente se traçam os dogmas da arbitrariedade, disfarçada de ideologia e boas intenções. "Os problemas que existem hoje no Mundo não podem ser resolvidos pelo mesmo nível de raciocínio de quem os criou", disse Einstein. Carecemos de facto de uma sensibilidade que seja ela própria um estado moral, a consciência para uma verdadeira ética democrática, que respeite a vida como a dádiva mais sagrada. E não a demagogia de palco e comício, para engendrar ódios e equívocos e justificar o assassínio impune.
Ninguém poderia ter escrito este livro senão Nega Mezlekia. Escreveu-o com a sua vida, com as lágrimas, levando chibatadas do destino, ainda tão empoeirado em certas partes de África, entre os cínicos risos das hienas pastorando as trevas de Jijiga, a cidade do caos, dos rituais e dos incensos onde a História se escreve, uma vez mais, sobre um papel de cinzas e que uma criança, colocando numa fisga essa ardida pedra de fatalidade tenta arremessá-la para longe, acabando inexoravelmente por lhe cair nos pés.
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