O amor nos braços de um macaco
Eduardo Bettencourt Pinto
“Intense love does not measure; it just gives”.
– Mother Teresa
O seu gesto, magnânimo, provavelmente não foi de quem escondia sob o peito uma rosa proibida e maliciosa. O amor, convém lembrar aos mais desprevenidos, não obedece a um arquétipo: reparte-se numa miríade de faces, sons e cores.
Neste caso, talvez filantrópico, podia coabitar inúmeras razões antagónicas. Ou nenhuma. O certo é que ele, com um suspiro e ar grave, depositou na secretária dela um enorme macaco, negro e felpudo. O bicho de pano, de uma eterna quietude e serenidade, parecia, sob o foco da luz fluorescente, expectante. Não o cobria o denso e vegetal silêncio de uma floresta tropical, mas o calor que emanava da face ruborizada de quem o recebera.
Aquele acto público de afecto, sem aparente motivo, parecia tê-la vexado. Não eram íntimos, tão pouco fazia anos, ou estava prestes a reformar-se. Viera, sim, com a roupa molhada pela humidade da manhã, os olhos ainda pesados do sono interrompido, calada como uma árvore num dia triste de Outono. Um café aromático, para quem chega assim de modo tão afrouxado ao serviço tê-la-ia levantado, de uma assentada, dos escombros do tédio.
De vez em quando o Olav, curioso, lançava um olhar para trás. Dorothy, debruçada sobre os papéis, parecia ignorar aquela estranha e súbita atenção. Os seus gestos, porém, denunciavam indícios de nervosismo: irritava-se com o telefone, caíam-lhe coisas das mãos, corria-as pelo cabelo no disfarce de reparar, desconfiada, se estavam a observá-la.
Gordinho, de barriga satisfeita e proeminente, pouco mais alto do que a fechadura de uma porta, andar desconjuntado e rápido, Olav nunca poderia ser o protagonista galã de um filme romântico. Para Dorothy, quase sempre desgrenhada, de feição rígida e o autodomínio de um general, tão descontraída no vestir que parece uma hippie serôdia, o aspecto físico de Olav seria, julgo, pormenor de secundária importância.
Mas o que é aparente só veste a pele do real. A dado momento, como a querer distanciar-se de qualquer claustro de equívocos, e antes de ferrar os dentes lânguidos e ávidos na sandes do almoço, disse para quem a quis ouvir:
«Só gosto dos homens que deixam cair a sua sombra vertical sobre mim. O contrário, nunca.»
Olav, indiferente a quaisquer conjecturas ou sarcasmos, manteve-se imperturbável, como neste optimista aforismo de Charles Beard:
«Só no escuro é que podes ver as estrelas.»
Não sei se ele as via, secretas e longínquas, a brilhar no amplo céu da sua bonomia. Ou se reparou quando ela, ao sair, levava o macaco apertado contra o peito, como se levasse uma criança ao colo. Ou o pequeno mundo da sua alegria efémera.
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