Sabia
chegar ao outono sem morrer
Eduardo BETTENCOURT PINTO
Bebia
o rumor das palmeiras junto às sebes
quando anoitecia.
Cantava sentado num muro de magma.
Eram os últimos dias do verão;
as amargas guitarras das palavras
despiam-se de langor
nos sedutores lábios das mulheres.
Não havia outro céu
na dor e no júbilo dos seus olhos.
Sobre os pés corriam as sombras e os gemidos
de uma chama branca, a áspera língua
de crepúsculos antigos.
Acendia então as velas da memória,
uma a uma,
sobre a mesa de mármore.
No olhar crepitava o verde ferido e húmido
de Sailu, a peregrina dos trigais,
e o pesado
ruído do silêncio.
O vinho
mais inebriante, a frágil eternidade do amor,
perdia-se na distância funda
onde apenas voavam, livres,
a imaginação e os segredos
do sangue.
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