| Um país? Que importa? Eduardo BETTENCOURT PINTO Podia ter um país, desses que se apontam no mapa com fulgente dedo de cristal. Ou um cão, sabemos, companheiro fidelíssimo nos melancólicos parques do Outono, sábados à tarde, quando a vida é um tédio inevitável e uma boa caminhada faz amortecer dentro de nós a falta do mar, a raiva aos cobradores de impostos, ao cabotinismo dos que nos olham de soslaio porque usamos ainda palavras como «amor» e «integridade.» Os caninos, é certo, têm a pureza do que é leve e respirável, e uma nobreza tão humilde que até os deuses, na sua redoma de glória passageira, neles vêem retratada a sua ulterioridade. Sobretudo os de hoje, pouco castos, muito mediáticos nos seus fatos políticos de homens civilizados até às unhas dos pés. Os assassinos da poesia têm camisas rendadas e um aperto de mão perfumado. Por isso os países são irrelevantes. O meu, disseram-me há muitos anos, era uma traição à História. Morria comigo e com os meus amigos. Hoje não me faz falta. A minha saudade está rodeada de mar. É uma paisagem entre eucaliptos, uma estrela de orvalho nos dedos da melancolia. Que importa? Tenho boas recordações. A minha infância foi uma casa nos braços de minha mãe. |
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