O mar que atravessavas em Setembro
Eduardo BETTENCOURT PINTO

 

O verão cabia nas tuas mãos quando abrias as águas
dos cabelos.
Vias-te ao espelho do mar em frente.
No coração ouvias os passos que o vento deixava
sobre as espumas
da ansiedade.
Até que secaram com a chuva
nos vasos mais desolados de setembro
e um ressoar musical de pedras solares
te cobriu os pés descalços.
Não sei quantos anos levaste para chegar
aos meus olhos, em que nuvens cumpriste
os sonhos da madrugada,
quantos flamingos imaginaste pousados
no musgo das palavras mais cintilantes.
Tudo em ti era um barco de luz na ponta
dos dedos, uma trança caída sobre a janela aberta.
Eu não existia ainda na tua boca.
E não sabias que este homem nascia aos poucos
nos mais solitários eucaliptos do crepúsculo.