Idade

Eduardo Bettencourt Pinto

A memória abre-se nas mãos
como um livro antigo.
Já não tens na pele o cetim da juventude.
Mas não és um velho perdido num solitário banco
de jardim olhando patos tristes, ou o perfil
dos telhados onde se recolhem as pombas
e as nuvens mais órfãs de junho.
Ao fim da rua encontras uma floresta
de sombras brancas, quero dizer,
a casa.
Ouvias um piano; é tudo o que tens agora
desse tempo, a música dos dedos nas teclas,
os jarros altos, as olaias que cobriam as manhãs.
O mundo agora é outro, mais ausente.
Todos os dias há um vazio que cresce, um clarão
de sinais cegando as imagens.
Mas estás aqui, ouvindo o passado,
as vozes mais íntimas que soam a chuva
ao cair da tarde.
Abres a porta e o verão canta
entre as árvores, um cão ladra.
Um rio de luz atravessa
os teus olhos.
Não sabes o que é isso.
Mas é bom o cheiro
da relva cortada
sobre as lágrimas da terra.