Cântico
Eduardo BETTENCOURT PINTO

Morria sempre que ouvia Schubert na cadeira branca
do verão.
Doía-lhe um nome a sangrar sobre as rosas.
Faltavam-lhe a casa junto à praça, os pombos debruçados
sobre o fontanário.
Fechava os olhos nas mãos, as enormes fendas da ternura.
Era como se tivesse chegado cego ao fim dos dias,
buscando o inominável, a cor infinita do mundo.
Arregaçava as calças aos joelhos e imaginava
as infindáveis, ardentes terras do que sentia.
Chorava sobre o rumor da música sentado
na sua própria ausência.
Os seus pensamentos viajavam para muito longe,
chegavam aos vibrantes pátios do passado,
ao imperturbável movimento das fronteiras
onde vibraram guitarras nocturnas, o odor enlouquecido
do jasmim, a curva do dedo onde o vento
apontou outros sinais no horizonte do poema.
As andorinhas regressavam aos telhados, iluminadas
pelo espanto da tarde.
Ouvia Shubert, já disse.
O adeus do verão cantava com o sol nas suas costas.
A árdua brisa do destino era uma pulseira de agitações
nos seus pulsos.
Chorava, juro,
encostado a um basáltico muro de sombras.