| Plaza Bolívar Eduardo Bettencourt Pinto
A tarde sem a voz das palavras. Pedra sobre pedra, o silêncio. Cantas comigo ainda, ó doce instância!, voz de todos os frutos, cálice de néctar e voo de borboleta. Mas por toda a extensão da praça afundam-se os barcos da melancolia. A esplanada, onde cantaste com a tua voz de fogo e água, uma clareira agora onde bebo uma cerveja, perdido na imensa floresta da solidão. Tomba a tarde funda, impenetrável. Corre por mim como um rio de relâmpagos alucinados. Há um espelho de sombras a levitar sobre as mesas vazias. Sentado à mesa desta hora tardia, penso nesse mundo que habitou o poema com as guitarras alucinadas de um mar longínquo, no seu olhar nocturno, e que canta sobre todas as coisas, belas e tristes, enquanto a noite cresce como um vendaval de escuridão. Recosto-me devagar, e como um náufrago, às buganvílias mais rubras da última claridade. Tenerife, 30.09.2008 |