O rio do Tony ©2002 [EDUARDO BETTENCOURT PINTO]
A senhora que me corta o cabelo é tailandesa. Canta, canta sempre e na sua voz oiço murmúrios de água. Tem mãos leves, duas plumas que volteiam, ligeiras, a minha cabeça. É magra, mas de uma magreza elegante: pisa o chão com a substância e a leveza de uma folha de palma. Enquanto a tesoura vai atirando ao chão pequenos flocos de neve, ela conta histórias. Oiço, atento, os seus fascinantes relatos. Há um país exótico detrás da sua voz, o azul húmido do céu entre os golpes da tesoura, passos crepusculares de flamingos pisando praias distantes no ressoar ligeiro dos seus pés. Antes dela foi o Tony, um italiano de meia-idade que, durante anos, me cortou o cabelo. É um homem interessante. Mas não devia, nunca, manejar uma tesoura. Eu gostava de lá ir porque da sua cadeira via o rio. Tinha a televisão junto ao tecto sempre desligada, o pote do café a cheirar a queimado e os olhos de um lenhador antigo e triste. Os preços, escritos num cartão, preso com um cordel a um prego, eram de há vinte anos atrás. Tinha sempre revistas de automóveis, novas. Vi tipos, ávidos, lerem-nas com a língua de fora. O canto de espera, com quatro cadeirões de napa verdes e antigos, era um regalo: um homem acomodava-se confortavelmente folheando sonhos inalcançáveis — carros de desporto tão caros que davam para comprar um bloco de casas. A barbearia, num edifício de esquina, já não era deste tempo de centros comerciais onde meninas entediadas, imperscrutáveis e de unhas pintadas de roxo, nos lançam ao pescoço toalhas fumegantes e nos deixam, depois de alguns bocejos, dois ou três cabelos cortados no colarinho. O problema do Tony é que ele se lançava à minha cabeça como se tivesse diante de si a relva do meu quintal para cortar. Falava da pesca ao salmão com o mesmo orgulho com que um revolucionário discorre sobre as últimas vitórias contra o fascismo. Eu observava os seus movimentos de soslaio, não fosse ele, num golpe desastrado, cortar-me uma orelha. Já de pé, sacudido da pelugem que me caía invernal nos ombros e nas costas, sentia as orelhas a chiar e tão quentes como se eu tivesse saído de uma sauna. O pior é quando chegava a casa: a electricidade estática ajudava a mostrar com mais nitidez as imperfeições e os golpes distraídos da sua tesoura. Se algumas vezes os tufos apontavam para cima, não era mau de todo — dava a impressão de ter crescido dois ou três centímetros. Mas se cresciam para os lados, alto lá!, a estética assemelhava-se muito às transfigurações cubistas de Picasso. Sentia-me, na verdade, um quadro em movimento. Levei os anos todos em que frequentei a barbearia do Tony alimentado com uma expectativa masoquista: esperar indefinidamente que das suas mãos apressadas e inábeis viesse um dia a surgir o corte de cabelo perfeito. Era, em última análise, um jogo perverso comigo próprio e uma contradição, sobretudo porque nunca me interessaram atavios, quaisquer que sejam. Eu estaria, numa analogia assaz exagerada, como o degredado Henri Charrière de o livro «Papillon». Enquanto esteve preso nas Guianas francesas, viajava os olhos desde a sua cela até ao profundo e magnífico mar que tinha diante de si, pensando no dia da sua liberdade. Eu via um rio triste, silenciado pelos imensos dias de Inverno, um carro ou outro que passava. No Verão, as flamantes línguas solares demoravam-se nos vidros e eu era feliz nesses momentos, lembrando-me de África. A minha complacência e lealdade ao Tony duraram até ao dia em que uma enorme e descarada gargalhada atirou-me, sem pejo, ao chão. Era o último dia no Rio de Janeiro. Estávamos numa espécie de Feira da Ladra, quando demos com dois barbeiros, sob um toldo. Meti-me logo na fila. Estava farto de disfarçar as imperfeições do Tony com água e pressões de mão para acalmar o cabelo, que de repente se levantava como se fosse impulsionado por uma mola. Quando chegou a minha vez, mal me sentei o barbeiro carioca olhou para o meu cabelo com espanto. Os seus olhos cresceram como os do camaleão perante uma mosca. — Oi, cara! Você cortou o cabelo com caco de garrafa, é? As gargalhadas sacudiram-no todo, até a minha cadeira. Se ele não se tivesse controlado, até chegariam a rachar o espelho onde eu, vexado, me via. A sua galhofa tinha legitimidade: parecia que eu tinha levado um choque eléctrico. As minhas melenas, convém frisar, assemelhavam-se a um ouriço-cacheiro. Foi a primeira vez que, entre dentes, amaldiçoei o Tony. Aprendi nesse momento que um rio, qualquer rio, não merece um mau corte de cabelo. |