Ode à leitura
Eduardo BETTENCOURT PINTO




Tão cedo acordas que até a noite ainda dorme, encolhida como um cão silente e frígido junto aos teus pés, escurecendo as paredes onde a luz do candeeiro reflecte a silhueta da tua atenção, agachado sobre um livro. As frases correm entre os olhos como rios perturbados, onde navegas solto na ofuscação de quem se senta no mundo sem estar em lado algum. É noite cada vez mais no instante em que acordas, numa casa onde entraste para que teus filhos crescessem com pássaros à janela, e lhe desses, à medida legítima da fidelidade, uma língua e um pedaço de pão emocional sobre a inaudita mesa das estações. São poucos os anos em que um homem se aventura no tempo, esse poço de ecos e sem fundo onde mergulhas os pés cada vez que levantas o cobertor da madrugada e pisas a fundura de um novo dia, essa vida que levas num país de olvidos e cujo nome não é da pertinência dos eruditos ou daqueles que escrevem tratados económicos ou servidões intelectuais para serem consumidas em razão inversa ao território do coração ou a um canteiro de reminiscências onde se ama de amor puro as chuvas mais tristes das horas. Por razão alguma e por todas cobres o sono da tua vida com um manto de palavras, anjos de néctar e repouso de abelhas em cujas pétalas um universo de raízes perpetua a sua voz levando-te pelo mar em que te entregas cada vez que mudas a página e nela te revês, amargo, divino e pecador, como são todos os filhos órfãos do vento e da madrugada. Lês para que mais curtas sejam as estóicas fronteiras onde a humanidade faz tilintar as espadas em nome das tribos e dos labirintos do fogo: cansando-se de subir escadas na solidão de poentes que se ausentam nos pródigos fazedores de silêncio entre o tropel da guerra e o passar das serpentes nessa História de cinzas que se afunda como uma pedra no lago das consciências mal servidas. Lês, sim, o sangue impertinente das sombras enredando-te o corpo com suas lianas frias, enquanto repousa o mundo, a casa e a ternura, enquanto as estátuas das palavras se movem dentro dos teus olhos apontando-te os canaviais e a saudade, o choro inevitável da terra sob o peso da ignomínia e das árvores quando tombam rente ao murmúrio augusto das serras da retórica económica, e dessas avenidas do Outono onde as matilhas passam enlouquecidas pelo cheiro do dinheiro e dos perfumes de laboratório. Acordas cedo todos os dias como se pintasses nas paredes do tempo um vale onde as aves da alegria regressam aos ombros das crianças e ao torpor longevo da esperança voando em torno das primeiras rosas de um novo dia.