Mister taxman
e o gigante paranóico
©[EDUARDO BETTENCOURT PINTO]

 

Cheguei a casa com as botas cheias de lama, o casaco e o chapéu húmidos da chuva. Trazia no corpo a vasta melancolia do Outono. Os olhos pediam o refúgio das pálpebras, enublados de um sono interrompido amiúde, encolhido numa tenda com o Fábio, o escuteiro da família, enquanto tentava adormecer.

Chovia, como sempre chove aqui: a potes. Mas as crianças, que fazem festa até com uma pedra nas mãos, não pareceram afectadas pelas condições climatéricas. Montámos as tendas, convencidos de que o fim-de-semana seria infinitamente mais longo do que o previsto. Até que o Jeff, bonacheirão, chegou com uma enorme cobertura de poliéster. Caímos sobre ele como abelhas desesperadas.

Nessa tarde, andámos por trilhos húmidos, em ordem militar, enquanto um dos «leaders» ia explicando o nome das plantas, a sua anatomia, os fenómenos das estações. Eu ouvia, fascinado, os rumores da floresta. Os poemas nascem desses espíritos, de iridescentes e secretas vidas e dos íntimos odores do imprevisível. Perante a majestosa figura de uma árvore, sinto-me reduzido à insignificância de um suspiro. Lá em cima, nos últimos ramos, há sempre um deus que passa a cantar.

À noite, ao redor da fogueira, o frio encolheu-se de vergonha. De mantas sobre os ombros, ouvíamos as crianças, as suas histórias e anedotas, os cânticos. Foi num desses momentos que soaram as rodas de uma carrinha.

O «taxman», um jovem sisudo e muito hirto, surgiu do escuro apontando-nos uma factura pelo fogo de que usufruíamos. A madeira era nossa. Ocupávamos um espaço, é certo, mas provisoriamente. Além do mais, o parque encontrava-se praticamente vazio. Nem mesmo aqui, pensei, há a liberdade de uma gargalhada e de um gesto, de a voz de uma criança a crescer eufórica entre o fogo, sem que o cobrador de impostos, em nome de um dever abstracto, leve dos nossos bolsos o que o governo deveria promover. Este é, cada vez mais, um mundo vazio de valores e prioridades.

Na manhã seguinte, muito cedo, reparamos na carcaça de um cachorro quente a deslizar pelo chão. Assombrados, vimos um esquilo a correr com ela na boca e subir depois a uma árvore com a determinação de um guerreiro. Parou a meio da escalada e deixou a carcaça apoiada num ramo seco, após umas dentadas rápidas. Saltou de seguida para outra árvore e desceu, veloz, para o chão.

2

Mal tinha chegado a casa apareceu o Mauro, afogueado, encostando a bicicleta ao banco da entrada. Explicou-me que estava a ver uma montra para verificar o preço de uma guitarra, quando ouviu uma voz áspera atrás das costas. Era um gigante barbudo, avançando a passos largos, como se voasse. As botas, com biqueiras de aço, soavam a trote de bisonte. Com os braços abertos e ameaçadores, parecia uma árvore prestes a desabar-lhe em cima.

Vieste aqui para roubar, hã?

Sem pensar, o miúdo lançou-se para a bicicleta e pedalou com quanta força tinha. Não foi o bastante, porém. Um gordo, a balouçar os hambúrgueres do almoço ao volante de uma carrinha, cortou-lhe o caminho. Em poucos segundos, rodeado pelos dois heróis da paranóia, não teve outra alternativa senão capitular e sujeitar-se ao interrogatório dos imbecis. Chamada a polícia, esclareceu-se o equívoco e ele regressou a casa.

Metemo-nos no carro e fomos ao local do «crime».

Encontrámo-lo numa oficina de camiões. Quando chamei, apareceu uma cabeça que olhou para baixo. Disse-lhe ao que vinha. Ríspido, grunhiu que as coisas já «estavam resolvidas.» Para mim não estavam. Queria saber que lógica era aquela que criminalizava um miúdo só pelo facto de estar a olhar para uma montra. Enfurecido, meteu-se pela escada abaixo a resmungar qualquer coisa como «isto ainda vai acabar mal hoje». Não arredei pé.

Ele era de facto um gigante. Quando olhei para cima, só lhe vi a parte debaixo do queixo barbudo. Fiquei muito atento às mãos dele ¾ de repente podia sair dali um ciclone. Para derrubar «aquilo», só com um cacete de 200 quilos na mioleira ou um chuto à Figo nas sacas genitais. Eu não sou um homem pequeno, mas junto dele, confesso, parecia um mosquito. Nunca fui medroso e isso sempre me valeu em situações pouco amigáveis. Apetecia-me, na verdade, ferrar-lhe um pontapé, dois ou três. Ele era uma boca cheia de impropérios, cariada, nauseabunda, encimada por um cérebro de galinha. De repente apontou um dedo à minha cara, perfeitamente ao alcance de uma dentada. Teve sorte — nunca tive muito jeito para canino.

Nesse momento apareceu o gordo baloiçando os pneus estomacais. O melhor era sair dali. Homens de ferros, óleos, e, quem sabia?, sorrateira chave de fendas no bolso...

Enquanto voltávamos ao carro, atirei-lhe um «ver-nos-emos qualquer dia.» Ele avançou para mim dois passos coléricos:

— Está a ameaçar-me?

Não estava. Não sou vingativo nem rufia. Apenas acredito que os arrogantes são, entre os humildes, os mais vulneráveis. Se me coubesse provar alguma coisa, seria bonomia. Mas se ele tivesse tido a audácia de tocar no meu filho, juro, levava uma coça. Nem que eu vivesse durante seis meses numa jaula para treinar um gorila em artes marciais.