O POETA DAS SANDÁLIAS CAMBADAS
Luísa Ribeiro
Estou aqui e honra-me estar, na qualidade de leitora, atentamente emocionada pela poesia e por toda a forma de expressão humana que o Eduardo Bettencourt Pinto usa para dar ao mundo as cores que às vezes o mundo não tem.
O poeta – este homem da paz, que ele é – deixa sair do fundo da “caixinha das desilusões” que é sempre a nossa vida, um movimento silencioso impresso na palavra, um lúcido e inseguro voo, uma luz suave, uma ferida que verte e que doendo faz o caminho. E dá ao papel o rosto da infância – essa nunca perdida.
Não vou discutir se há poesia açoriana ou não, nem fazer história com pesquisas elaboradas sobre a arte que é a Literatura; nem vou traçar análises encontradas na gramática por onde todos nos orientamos, mas vou, sim, “tentar” (e com receio de não estar à altura) comentar a relação que no caso do Eduardo Bettencourt Pinto existe entre ser homem, ser humano e ser poeta.
Se em poesia há triângulo perfeito, estamos perante um deles e o que eu quero aqui é simplesmente aproveitar a oportunidade que me deram, para vos mostrar que a presença do poeta Eduardo Bettencourt Pinto é caso para nos fazer sentir premiados e ao mesmo tempo com os olhos molhados e orgulhosos também, por sermos todos um pouco da raiz que o orienta.
O Poeta arrisca o fogo nos dedos e neles segura as tiras das sandálias, para ter os pés bem nus e bem enfiados na terra curva. É assim que ele anda e percorre os sulcos mais sinuosos do passado e do presente: sem medo, sem armaduras; com o coração pronto para o frio violento dum verão qualquer.
O Eduardo Bettencourt Pinto vem do calor de Angola, para o gelo belo do trópico extremo e, enquanto vem, recolhe as flores lunares nos sítios mais húmidos de outras tantas ilhas que são, também, a casa dele. Habita o mundo pelo lado de dentro: a selva e o céu reflectidos nos rios. E é sempre por dentro, com os olhos despidos de sarcasmos, que o Eduardo Bettencourt Pinto nos abre o fogo íntimo da própria memória e nos deixa passear, com ele e em paz, nas casas da infância, nos jardins azuis, na humidade da saudade e do sul, construindo sílaba a sílaba, a infinita luz que lhe aquece os dedos.
O poeta transporta calmamente a sua origem – qual raiz funda na terra que o acolhe - e transforma-a em mel e em futuro.
É homem de silêncios quentes e poeta de silêncios ainda mais quentes. Tem ainda a respiração suspensa na mão da Mãe – afago para sempre (flor que não cai/ no outono do tempo); na luz do Pai (vieste como uma sarça abandonada/ apoiada/ na bengala da velhice); no brilho das manhãs, dos amigos, das terras e da poeira do sonho menino.
Respirando junto ao jogo do passado, de onde retira a mágica lírica para colorir o poema, dá som aos dias; escolhe a praia deserta, os álamos, a água, as árvores de junho; usa os frutos para alimentar as estações; traça caminho na chuva e passa rente ao chão, sem que se quebrem as folhas caídas dos plátanos.
Enquanto este poeta se rende à paz, passando sem ruído entre os pássaros, as flores abrem-se enfeitiçadas pelo rio de lágrimas que as palavras provocam e nada na paisagem se mexe, ou se desfaz ao toque branco dos dedos com que ele afaga o mundo, tão só para o confirmar.
Com os poemas do Eduardo Bettencourt Pinto ficamos a saber que o percurso, o dele e o nosso, é muitas vezes feito de sangue e gelo, mas que vale a pena chegar ao fim.
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