A casa das rugas José do Carmo Francisco
O projecto do herói deste livro de Eduardo Bettencourt Pinto (Editora Campo das Letras) é duplo: «Vou para Portugal estudar e em busca do meu pai». Dupla é também a sua estratégia: «recolher os restos do passado e reconstruir, dos fragmentos da melancolia, um retrato». A mãe é Carminha que transporta uma dupla orfandade: perdeu a mãe biológica e a missionária americana que lhe tinha tomado o lugar mas mesmo assim «nunca capitulou perante a tragédia.» O romance do pai (Pedro Rico) e a mãe (Carminha) é o encontro entre um branco apaixonado por África («Sinto que nesta cidade sou tudo o que posso ser») e uma negra desconfiada dos brancos («Alguns só estão cá a pensar na casa que vão construir na aldeia natal»). Mas Pedro Rico é diferente: «Logo que troquei a farda pela roupa civil nunca mais pensei voltar a Portugal.» A juntar a esta familiaridade está a profissão de Pedro Rico – topógrafo – sempre em contacto com a terra. Esta é uma história que oscila entre o amor e a morte. Pedro fala para a Mulher falando da Terra: «Peço-te que cases comigo perante o Amor, a savana, as chuvas, o odor do maboque e dos figos bravos, as nuvens, a silhueta do sol sobre as cubatas.» A Morte é o contraponto do Amor: «Afonso, que celebrara o casamento dos meus pais, foi encontrado morto dias antes da independência vítima de uma bala transviada. Nunca se chegou a conhecer o autor do tiro.» Entre o Amor e a Morte está Angola, uma Angola entre equívocos e loucura: «Angola começava a tombar pelas ruas, gente a fugir por entre um mar de caixotes. Os aviões, de tantos, eram mais do que as andorinhas.» Nota: O último parágrafo foi omitido (com a anuência do autor) de modo a não revelar ao público o segredo da história. |