O escritor que tem o vício das palavras
Jorge Heitor



“… que a ausência seja a faca rasgando-nos o coração, o reencontro a brisa fresca de um dia quente”. Quem assim escreve é uma das mais belas vozes da língua portuguesa que nos últimos 60 anos nasceram em Angola e que daí partiram para o mundo, a falar do mar que cantava nas costas de Benguela e da Luanda de 75, que “andava, frenética, aos tiros”.

“O cheiro do café em flor, a suavidade da neblina quando anoitecia, o cantar dos galos” transcendem da poesia e da prosa de Eduardo Bettencourt Pinto, que nos deu há poucos meses o romance “A casa das rugas”, dedicado à mãe, aos irmãos e aos amigos, que são muitos, incluindo o seu compatriota José Eduardo Agualusa.

Trata-se de uma reinvenção da África recente, quando muitos portugueses ainda se sentiam muito melhor por lá do que na velha Europa, convencidos de que era esse o seu “Quinto Império”, ao qual estavam predestinados, mas que a segunda metade do século XX lhes roubou, arremessando-os para outras paragens.

Este exercício de catarse é a estória dos amores de Mamã Carminha e de Pedro Rico; de um cruzamento entre etnias diferentes, como se o mundo ideal fosse o da mestiçagem, no qual abatessem as barreiras civilizacionais e todos os homens (e mulheres) fossem cidadãos do mundo.

Neto de açorianos, radicado na Colúmbia Britânica (Canadá), editado em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Macau, Lisboa e outras paragens, como o Porto, Bettencourt Pinto “tem o vício das palavras”, como já notou Onésimo Teotónio Almeida. E que bem que ele escreve, o escorreito Eduardo!

“Para onde quer que se virasse, Pedro Rico sentia o cerco do infortúnio. A cidade era o eco da sua própria calamidade. Naquele homem via o espírito morto da noite, a sombra de si próprio”. O seu romance é também, entre outras coisas, o dos retornados, o dos que de Angola ou de Moçambique vieram morrer numa qualquer pensão do Bairro Alto ou numa aldeia do Douro, a contar os parcos tostões.

Suplemento Mil Folhas do jornal O PÚBLICO