Jorge Arrimar
á algum tempo atrás o Eduardo escreveu-me do Canadá, onde vive há longos anos, a dizer que estava para publicar um livro aqui em Portugal, e que gostaria que fosse eu a apresentá-lo. Claro que fiquei muito satisfeito com a deferência que o convite representava, mas lá fui dizendo que, talvez, fosse melhor convidar outra pessoa, com mais conhecimentos sobre Literatura e os meandros da crítica literária, ou eventualmente um escritor conhecido aqui em Portugal que ilustrasse a cerimónia de apresentação do novo livro. Eu não me havia esquecido das últimas sessões de apresentação de livros do Eduardo, em 2000 e 2001, cujos apresentadores foram os escritores Eugénio Lisboa, João de Melo e Urbano Tavares Rodrigues. Mas, pelos vistos, o meu amigo queria mesmo que desta vez fosse eu a apresentar o seu novo livro - “Em memória de Angola e dos nossos tempos de exílio insular” - disse-me ele, quando eu tentava dissuadi-lo de continuar a ter-me como apresentador do seu livro, pois achava que ficaria melhor servido com quem continuasse a qualidade dos anteriores. “Que não, que desta vez seria em nome da nossa amizade, que já vai longa. Que mais do que do livro, falasse de nós”, dizia-me ele. E aqui estou eu para falar do Eduardo e de nós, mais do que do livro.
Já lá vão quase trinta anos que nos encontrámos na ilha de S. Miguel, nos Açores, quando, dizíamos, que “o céu tinha desabado sobre a nossa cabeça”. Mas apesar da tristeza que experimentávamos, apesar de, por vezes, pensarmos que a nossa vida se havia estilhaçado, espalhado sem remédio por todos os desertos deste mundo, tínhamos as mãos abertas em concha e delas elevavam-se as nuvens brancas dos sonhos próprios de quem era jovem. Era o tempo de desenharmos mapas na pele com coordenadas largas que abarcassem a imensidão de vida que ainda tínhamos pela frente, uma paisagem de labirintos que não se esgotava nos limites das ilhas, sempre tão ali ao virar de cada monte, no final de cada prado. Os nossos gestos guardavam memórias largas, segredos abertos, silêncios e sombras, escorregando por entre os muros de um tempo roubado, de regressos, dia a dia, planeados. Tínhamos vinte anos, apenas, e o sonho contornava o perfil arredondado do horizonte de uma ilha que se havia feito nossa jangada. Ambos vínhamos da terra africana, do Sul angolano, espaço que fora o nosso berço e onde crescíamos ao cheiro morno do café e ao sabor doce da cana-de-açúcar. A nossa geografia até ali centrara-se entre a Gabela do Eduardo e a minha Chibia. Foi assim, enquanto a queimada não se alastrava das matas para as vilas e cidades, e a nossa infância ainda brincava entre cafeeiros em flor, à sombra de frondosas mangueiras e nos misteriosos esconderijos dos canaviais.
No dia em que descobrimos que a fuga nos afastava da terra e das raízes dos embondeiros, vimos que, nos Açores, a ilha de S. Miguel sorria hortênsias para nós. Foi em 1976 que eu e o Eduardo nos encontrámos pela primeira vez, abençoados pelo silêncio da Lagoa do Fogo, silêncio que só o guincho das cagarras conseguia, de longe em longe, quebrar como o vidro. Encontrámo-nos apenas, porque conhecer já nos conhecíamos das mesmas memórias que trazíamos. Só éramos diferentes raízes dum mesmo embondeiro. E foi com fogo que ele escreveu o primeiro poema que chegou até mim:
ESPERANÇA
[…]
Guardo na minha alma o vazio
de uma fogueira que se apagou
num assopro irreversível de um adeus,
que veio até mim por entre vagas espessas
e sóis sem calor…
Sou, na madrugada, a areia fria
a divagar em todos os prantos do mundo.
Ah…Quem me dera viver num minuto…
Escolher os meus passos na estrada estranha
palmilhando na derrota a força de vencer.
Oh! Alma inquieta, filha do sem fim,
sinto o teu vozear profundo, a tua razão
e quedo-me nos mais ínfimos pormenores
desse anseio que na paz faz germinar
a mais sagrada Esperança…
(Publ. pela 1ª vez a 27 Set. 1976,
em Ponta Delgada, num jornal local)
O impulso poético foi-se tornando cada vez mais poderoso em Eduardo. É então que ele nos oferece “Emoções”, o seu primeiro livro, publicado em 1978, e dedicado (entre outros) “À minha terra longínqua onde, agora oiço a voz da distância; Aos Açores, terra de minha mãe, onde todos os homens de bem encontram a sua terra”. De facto, seria entre a terra de sua mãe, os Açores, e a sua terra natal, Angola, que Eduardo descobriria a cor das tintas com que encheria o arco-íris da sua criação literária, nessa altura, muito partilhada comigo e com outros jovens poetas. É de 1979 a edição colectiva “Nós Palavras”, que reuniu a poesia de vários poetas naturais e residentes nos Açores, na qual nos incluíamos; e a publicação de “Poemas”, um livro de Eduardo e meu, onde se expressava, de forma muito forte, a nossa angolanidade e a saudade da terra natal. Desde “Poemas” até ao livro “A Casa das Rugas”, que agora vos apresentamos, já lá vão nove títulos de poesia; quatro de ficção; a organização de uma Antologia da poesia açoriana contemporânea e a tradução de oito poemas de Michael Yates, para além de ter assumido, durante alguns anos, a edição da revista virtual “Seixo Review”.
A escrita lírica e narrativa do Eduardo é, pelo peso da interioridade, uma escrita de movimento quase pendular, e como diria dele João de Melo, (Prefácio de “Tangos nos Pátios do Sul”), saída da “voz de um poeta ao mesmo tempo nítido e embrumado nas suas memórias”. Atrevo-me a avançar um elemento de ligação entre o seu primeiro poema, atrás referido, e este seu livro, pese embora o facto de ambos os textos serem de géneros literários diferentes. Descobre-se o fechar dum ciclo na já longa espiral da sua vida de autor. Se o poema “Esperança”, publicado em 1976 (Há já quase três décadas, portanto!), é dedicado ao seu irmão Guilherme, o único dos irmãos que havia ficado e que ainda permanece em Angola, querendo com isso manter a ligação e a esperança de um reencontro com a terra natal; “A Casa das Rugas” – título que em si mesmo é uma metáfora, pois trata-se de um livro que se constrói a partir das rugas de uma casa que é o próprio tempo onde viveram as suas principais personagens, Pedro Rico e Mamã Carminha - é o regresso do autor à terra natal, através de uma história de amor entre um europeu que consciente, assumidamente, se deixa tomar pela terra africana, primeiro, e pela mulher africana, depois. Desse amor, violentado pela guerra civil que assola o país a partir de 1975, nasceu um menino – Alexandre – que é um símbolo de reunificação, de redescoberta, enfim!, de Esperança, também. É este filho, que assume a cor da sua pele como “a cor do amor entre dois mundos diferentes”, que vai tecendo a trama deste livro, “convencido de que a arrumação do mundo começa sempre em volta das nossas mãos”. Ele inicia a tarefa difícil, mas gratificante, de escrever um livro como se faz a reconstrução de uma velha casa, primeiro pintar as “cadeiras, portas e paredes […] até os muros onde as buganvílias, sedutoras, se estendem em cintilações solares.” E o livro vai surgindo entre o pó de reboco velho e o arco-íris de tinta ressequida que a humidade deixa por mais tempo no ar, como se fosse uma névoa a embaciar “os espelhos da memória”. A Casa das Rugas abre as suas portas ao leitor, e convida-o a subir cada degrau, a percorrer devagar cada quarto, num percurso de amor e de esperança. Sobretudo da esperança que se fundamenta no amor, como se depreende das palavras que estão inscritas à entrada da casa… ou no começo do livro, e que são da autoria de Alexandre Rico: “Vou para Portugal estudar e em busca do meu pai. Diria melhor: do homem que descobri nas palavras e no reboar do amor de Mamã Carminha. Vou atrasado? É esse o fim que me cabe?, de recolher os restos do passado e reconstruir, dos fragmentos da melancolia, um retrato? Vou, sobretudo, por Mamã Carminha. E pela imagem de um pai que só existe em palavras […]”. É no amor, amor completo, que se revela, também, como um símbolo de inconformismo em relação às barreiras étnicas, sociais e culturais da época e do lugar, que o Eduardo tem depositado, nestas quase três décadas de actividade literária, a esperança da reconciliação, por que é desta que nasce a paz. Para mim, A Casa das Rugas é um hino ao amor, ao amor entre um homem e uma mulher e, naturalmente, ao fruto desse amor, essa criança que, na ausência da figura paterna, juntava “as folhas das mangueiras [para] tentar fazer com elas o rosto do [seu] pai”, na pueril crença de que, assim, Deus o levantaria “daquelas folhas desesperadas, do pó, da terra e do silêncio” e lhe apertasse a mão, levando-o “até às lágrimas de Mamã Carminha e as secasse para sempre.”
Eis o livro, e eis o autor aqui ao meu lado, o meu amigo para quem escrevi um poema, há vinte e dois anos (1982), intitulado Flor de Milho, quando ainda tínhamos a ilha como nossa segunda casa, antes de partirmos, como as cegonhas, para uma outra qualquer chaminé. Depois de tanto tempo vou lê-lo de novo, e faço-o como um sinal de renovação da amizade, como se o tempo não fosse mais do que uma nave que levasse dentro, incólume, os mesmos sentimentos. Que seja então um símbolo daquilo que nós não queremos que vá com o tempo num só sentido, sem retorno. Assim, na ilha como agora junto ao Tejo, eu ofereço-lhe este poema com o meu aceno rosa-de-porcelana:
FLOR de MILHO
Soltaste um pássaro de sol
pelo infinito dos caminhos
a desintegrarem-se em espuma
no vale das estrelas caídas…
Somente aquele poema de fogo
gravado no corpo descarnado dos vulcões
te faz ainda promessas de silêncio,
a mais pura das vozes a descer sobre ti
em gotas de orvalho perfumado.
Do seio prateado das lagoas
enlaçam-te raízes brancas
como asas de borboleta,
mas da tua boca eleva-se um sorriso
lavado com a água da saudade:
-“Nunca me esqueci que vim do Sul”
onde o mágico crepúsculo se banhava
no rio Chilo
e os cafeeiros em flor
cantavam versos de luar
ao som do velho kissanje
de Paulino Valúnje!
Das folhas do teu cajueiro
dispersas na tempestade de uma noite
que jamais se apagará
começa já a despontar a aurora
de uma flor de milho
que tu depuseste no colo nordestino
do teu ser em fuga…
(Açores, ilha de S. Miguel, 24 Out. 1982)
Mas um dia, como as cegonhas, alçámos voo para outras chaminés, para distantes poisos onde construir novos ninhos: o Eduardo mais para ocidente, vindo a estabelecer-se no Canadá; eu, mais para oriente, passando a residir em Macau, de onde voltei a sair, depois de ali ter permanecido por treze longos anos. Entretanto, a publicação do meu romance “O Planalto dos Pássaros”, proporcionou-me uma viagem há tantos anos adiada. A Editora Chá de Caxinde ofereceu-me o mais bonito presente de Natal daquele ano: um convite para ir, em Dezembro de 2002, a Angola, com o objectivo de, em Luanda e no Lubango, lançar o meu livro. Devagarinho, pé-ante-pé, como a medo de se ser acordado num belo sonho, fui à minha terra natal, internei-me no quintal da minha infância e acariciei as paredes também enrugadas de minha velha e saudosa casa, a “nossa casa” que meu avô construíra nas margens tranquilas do rio Tchimpumpunhime.
MINHA CASA
Não quero perder o que ficou na minha
memória. Só aí ela está incólume, preservada,
a nossa casa cheia de vida, da nossa vida concentrada
num só lugar. As palavras das gerações foram
cimentando o adobe das paredes largas, o choro
e o sonho cruzaram o tecto como andorinhas
rumo ao ninho. É por isso que me sinto dividido,
perdido nos lugares que a sombra das velhas árvores
não conseguia chegar. Muitos foram os anos que
caíram dos ramos como frutos secos.
Não consegui que o choro me acalentasse a tristeza
de regressar sem que minha mãe estivesse
a receber-me à janela, meu pai a sorrir à porta,
minha avó a lamuriar-se por causa do frio ou do calor.
Sempre foi assim no tempo seco, quando a geada gretava
a pele e os lábios perdiam a suavidade do musgo.
Era nessa época que eu regressava
com o voo migratório dos pássaros.
Dormem comigo dores antigas que eu desperto
quando me levanto tarde. Por isso sinto o peso
das pálpebras a ganhar o corpo, a boca engasgada
de pasta-de-papel já usado. A marca-de-água
era outra que a memória resguardava.
E é com um poema sobre a minha casa das rugas que termino esta apresentação, não deixando de achar que, afinal, o Eduardo talvez tivesse razão em acreditar que eu era a pessoa indicada para lhe apresentar a sua casa das rugas.
Muito obrigado a todos,
Jorge Arrimar
(Lisboa, Bairro Alto, Livraria “Ler Devagar”, 19.30 H, Sábado, 20 de Novembro de 2004) |