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A
ilha do meu quintal
©[Eduardo Bettencourt Pinto] Cruzei-me, num dia de Abril, com uma senhora que saía do carro. Segurava o corpo delicado e retraído de um novelão. Parei. A memória da ilha, nas suas mãos, atraiu-me. Era uma senhora alta, de olhos oceânicos. Sobre os ombros escorria o manto diáfano de uma extraordinária cabeleira loira, pincelada a cinza. O Outono, inexorável, aproximava-se do seu corpo como uma sombra. Antes que fechasse a porta de casa e se perdesse para sempre, interpelei-a.
Voltou-se para mim muito surpreendida. Perguntei-lhe onde tinha comprado a planta. O rosto, então, descontraiu-se-lhe. Deu-me, sorrindo, o nome da loja e indicou-me a rua. Agradeci e prossegui o meu caminho. Minha mãe plantou os novelões no quintal, junto à parede de trás. A água da sua ternura tornou-os em duas magníficas plantas. No Verão, o seu azul parece um novo céu, muito junto à terra.
Mais tarde, no extremo do canteiro, outro novelão, de cores nobres e rutilantes, parece guardar a fragilidade de um pequeno tufo de margaridas.
Nos longos dias de Agosto, o pequeno jardim regurgita de vida e odores. Enquanto corto a relva, olho de soslaio os novelões, passando com a máquina rente à macieira que o meu pai, agachado sobre a velhice, me ajudou a plantar. As suas cores, que transcendem o imaginário, disseminam, dentro de mim, a energia da ilha, a geografia emocional onde estão registados, a sal e vento, os rostos dos meus antepassados maternos.
Apetece-me acariciar estas folhas húmidas, o seu delicado azul-lilás. Sequioso, levar aos lábios o nobre orvalho das suas pétalas antigas. Esse é, no fundo, o modo subtil de como se desce todos os degraus do Tempo: regressando aos primeiros dias da voz. Materna instância, em dias ventosos julgo ouvir nos pinheiros um mar que ressoa de muito longe, correndo pelo quintal fora, sobre o odor da erva cortada.
A memória por vezes hiberna no sonho. É o silêncio de todas as coisas, um estilhaço de asa em pleno voo, as agrestes harpas da água. Os pequenos símbolos, que são grandes e múltiplos, são estátuas erigidas a tudo quanto amamos, mesmo à distância, aquela que só o vento compreende.
A
ausência, rasgando as vestes da ternura, vivifica o itinerário
das nossas vidas. Neste caso, os Açores. Um estado de alma. Transfigurados,
os novelões do meu quintal ouvem os pássaros de Pitt Meadows.
E assim vou acreditando que a ilha da minha mãe, navegando no peito
da poesia, nasce todos os dias junto à parede da minha casa. |