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poeta , a vida presa às palavras?
[Eugénio Lisboa]
Dizia Virgínia Woolf que é sempre indiscreto mencionar os nossos afectos. Pode ser indiscreto mas é, se calhar , inevitável . Como é bom descobrir uma poesia , um poeta , um texto pelos quais se sente admiração ( genuína ) e, ao mesmo tempo , afecto (irresistível) ! A poesia (e nela incluo os belos poemas em prosa que são parte dela) de Eduardo Bettencourt Pinto, este livro, em particular — Um dia qualquer em Junho — é um motivo singular de admiração e afecto. Admira-se e gosta-se, isto é, sentimo-nos bem a admirar e admiramos aquilo de que gostamos. Convergências assim são mais raras do que se pensa . Poeta senhor do seu ofício , Eduardo Bettencourt Pinto sabe muito bem — como Mallarmé e muitos outros antes dele, como todos os verdadeiros poetas — que a poesia se faz com palavras , diz ele , que “ são a chuva nos olhos / do poeta ,/ a primeira sombra / da haste fascinada.” Só com elas , por elas , deslocando-as, provocando-as, tentando-as, conseguirá convir-se “ todo o fulgor solitário das chuvas .” Quando nos surpreende — nos apanha — com um “ assombro de inquietude ”, dá-nos um sentido de revelação pelo exercício certeiro de um glossário sábio e de uso reinventado. Não são palavras esdrúxulas, “ entre o arcaico e o difuso ”, a que ironicamente aludia Reinaldo Ferreira , são antes palavras simples , de todos os dias , mas que , contudo , como dizia Claudel, já não são as palavras de todos os dias . Ser poeta é reinventar a frescura duas vezes : no modo como se vê o mundo e no modo como se entrega àquilo que se vê como se fosse a primeira vez . Outra característica que nos impressiona nesta lírica de Eduardo Bettencourt Pinto é o modo de pudor como esconde o eu do poema num tu ou num ele mais velados e menos indiscretos . Dizia Pasternak que o poeta “encara o mundo na primeira pessoa . ” Cheio de um nobre pudor , o autor de Um dia qualquer em Junho transfere a primeira pessoa ( profundamente implicada) para uma discreta segunda ( tu ) ou mesmo remota terceira (ele): Vens Diz coisas importantes e mesmo fundamentais que o eu não rejeitaria assumir , mas delega-as, com modéstia , num anónimo terceiro : Escrevia poesia Sabe que a poesia — a criação — quando profunda , quando vital , quando se atreve , assume sempre a nobreza de um risco , mas faz a oferta dos galões desse risco a um terceiro , por detrás do qual se apaga: No fundo Sabendo que escreve para durar , oferece essa eternidade a um oblíquo tu : Deixaste o poema escrito contra o efémero . No poema “ Silêncio de Junho ”, ciente do ultraje que todo o dizer inflige ao silêncio do universo , o poeta , angustiadamente, pergunta : Como se veste De que frutos ? A resposta pode ser assim : veste-se de frutos como os que acolhe este livro . De frutos de uma visão genuína e nova que um discurso inventivo , alado e eficaz nos transmite. De frutos que nos surpreendem e fazem de nós , leitores , argonautas também das viagens de descoberta do poeta : do poeta que sabe dar-nos das “sagradas varandas do entardecer ” ou nos deixa “suspen(sos) de inadiáveis / deslumbramentos.”
* Prefácio do livro Um dia qualquer em Junho |