Dona Glória
Eduardo BETTENCOURT PINTO
Dona Glória, acácia dos mais longínquos dias do sul,
foi a mãe da tua inocência.
Vivia em sítio ermo, coroada por uma solidão azul.
A casa, sobre rocha,
janelas abertas às nuvens, era abrigo das rolas
e leito dos mais exasperados crepúsculos.
Seus pátios cintilavam com o ardor
de minúsculas flores selvagens.
Cânticos africanos, tão impregnados
de segredos líricos, desciam os degraus
de pedra
com a harmonia
dum lago imemorial.
Nessa vida aérea,
lavando o suor da família num tanque de cimento
sob a mangueira frondosa,
detinha-se de vez em quando a olhar
a tua infância lá em baixo
nos poeirentos e vermelhos caminhos
do vento, isto é, o Ebo.Trazia pelo fim da tarde palavras cheias de água,
frutos do quintal, fragrantes,
uma candura lunar nos olhos.
Entravas nos seus braços
como no útero duma segunda vida
— a doçura mulata da sua ternura. A mais feliz e nobre
do mundo. |