As cinzas do meu peixe
Eduardo BETTENCOURT PINTO
– Papá, sabes o que é isto?
Chovia. Eram pingos grossos, quase brancos, ofuscando os vidros da janela. Neve? Momentos antes, surpreso, espreitara. Os flocos perdiam a consistência no contacto com a relva. Respirei aliviado. O Inverno aqui é um vasto campo de escuridão e olvido. Um deserto de obscuridade. Na voz do Fábio, porém, chovia um mistério dilacerante.
Os vidros da porta francesa, semiaberta, reflectiam o seu corpo. Tinha as mãos abertas e nelas uma toalha de papel.
Sabes o que é isto? Perguntou novamente, aproximando-se.
Olhei. Pequenas e informes manchas escuras repousavam na folha. Pareceu-me fuligem.
– Não faço ideia – respondi-lhe.
– São as cinzas do peixe.
Nessa manhã, agitado, o Fábio aparecera no nosso quarto com o pequeno aquário. O «Branquinho», estático entre os outros peixes, contrastava. As duas rãs em miniatura, pachorrentas, nadavam em volta dele.
Ele tem fome mas não quer comer. Está sempre no fundo disse, consternado.
Então lembrou-se de ir buscar um frasco. Encheu-o com água morna. Depois meteu lá o «Branquinho», dedadas de comida e esperou. Mas o peixe não se mexia. Decidiu ajudá-lo: afundou a mão magnânima e, com muito cuidado, puxava-o à superfície onde o alimento boiava. O «Branquinho», contudo, não respondia aos seus esforços, a boca cerrada, indiferente. Solto, voltava, frouxo, ao fundo.
– É melhor deixares o peixe – disse-lhe. Ele não me parece estar com muito apetite.
As águas do frasco pareciam tragar, inexoráveis, o pequeno e translúcido vulto.
Um exercício lúdico para a manhã do Fábio? Não. O peixe estava ao seu cuidado. Era dele. Ele sentia-se perdido nas amargas e insolúveis margens da impotência. Como ajudá-lo?
– Parece-me que é o seu último dia, Fábio …
A emoção deixou-o calado por momentos. Queria transbordar-lhe dos olhos, a enrubescerem. «Os homens não choram», ensinam, tradicionalmente, os pais. Sobretudo os latinos. Nunca passei aos meus filhos essa dúbia versão de macho reprimido e envergonhado das suas emoções. Um verdadeiro homem chora com o sofrimento alheio. Até porque há mais coragem, dignidade e empatia em mostrá-lo do que em contê-lo. De modo que se as lágrimas lhe surgissem, encontrariam rosto em mim.
– Vou cremá-lo disse com ar contrito mas convicto.
– Porque não o enterras no quintal?
– No quintal, não. O «Rocky» comia-o logo.
As traseiras da casa estão cheias de buracos onde ele esconde, cioso, os ossos. Parecem crateras lunares. Descobriria o peixe com certeza. O «Rocky» é um glutão. Come de tudo e está voluntariamente à mercê do seu incontornável apetite. Gosta de ser gente, de exercitar os seus gostos copiando os nossos. Se me visse a fumar um charuto, sentava-se logo ao meu lado a pedir um. Já ganiu por uísque. Baixei o copo mas não lhe agradou o cheiro. Talvez cerveja. Vinho? Não. Espirrou na primeira tentativa.
Depois de me ter mostrado as cinzas do peixe, o Fábio, pesaroso, dobrou o papel. Fechou de seguida a porta e desapareceu pelas escadas acima. Mais tarde mostrou-mas, guardadas num saco plástico das sandes.
As cinzas do «Branquinho», escondidas no sigilo das suas emoções, ficarão com ele até ao fim da sua inocência.
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