As mulheres
Eduardo BETTENCOURT PINTO




Amo as mulheres desde o primeiro sol da minha vida. Vi-as em África, no ledo correr dos dias. Eram escuras e pobres. Estavam quase sempre descalças, uma quinda à cabeça, o peito livre dançando sob o quimono de chita. Ao redor da cintura, apertados, os panos garridos, envolvendo-lhes as ancas e as pernas. Atiravam-se aos caminhos muito cedo, transportando lenha, roupa, fruta, e não sei quantas gerações de filhos. Os homens, na sua frieza senhoril, caminhavam adiante delas, soltos, esmagando com os pés o sol cristalino e o rumor dos matos.

Eu levantava a mão para os saudar. Não sei o que lhes dizia, tão mudas eram as minhas palavras.

Cada um correspondia a seu modo: uns tiravam o chapéu com um gesto de sombras, lento; outros, tolhidos com o indefinível peso do silêncio, desfaziam um movimento sem eco, como se quisessem incendiar a brisa. Mas as mulheres, que eram as pedras na paisagem, sorriam com os olhos. Havia nessa saudação a dardejante formosura dos rios, a altivez azul dos céus e a profunda energia das raízes. Foi com elas que aprendi a linguagem do poema, a solenidade da água no Verão quando tudo arde e um clamor de aves se levanta ao fundo por entre as árvores mais tristes da soledade.

Queria, na verdade, ajudá-las com a perplexidade e a hesitação das minhas mãos. Cresciam ainda, envergonhadas e frágeis como o orvalho. Eram, suponho, pequenas borboletas da minha alma. Estavam cegas muitas vezes; sôfregas outras, ainda com o cheiro do pão do mata-bicho, do doce de goiaba, da voz branca de minha mãe. Elas, as mulheres, giravam no entanto numa órbita superior, na cor inefável dos cristais. Eu ficava então sentado na varanda de África, os calções de caqui sobre o pó vermelho dos caminhos, os pés adormecidos nas sandálias daqueles dias eternos. Cantava baixinho o nome delas, quase sempre frutos tropicais que eu ia colhendo com o olhar, imaginando o fulgor das suas vozes, as palavras que me sonegavam. Descobri nessa altura que as mulheres fazem o mundo, dando-lhe sentido, ordem, arte. Candura.

Observei-as na sua formosura juvenil na Luanda de antigamente, fragrantes, montadas nas motas da minha juventude, o cabelo em corrida para trás num vendaval de nuvens multicores. Dançavam às vezes perto do mar sob a ardência de saias tropicais, os braços estendidos num saracoteio frenético de missangas. O merengue, alto, era, mais que tudo, um estado de espírito, a ondulação sonora onde elas, observando o crepúsculo de sábado, inspiravam as águas que se perdiam na areia.

Nos Açores, algumas vestiam-se de negro. Passavam nas ruas estreitas olhando o empedrado húmido dos passeios, os pesados xailes de luto descaídos dos ombros curvos como buganvílias carbonizadas. Sim, eram pobres, a pele cortada pelos ventos do Norte. Ninguém lhes sabia o nome, quantos barcos naufragados guardavam no coração. Tinham cabelos fluviais, é certo, tocados pelo luar dos anos, lavados com sabões agrestes ou pela chuva dos longos caminhos da ilha. Levavam-nos escondidos na sombra de lenços, apertados sob o queixo. Passavam na retina dos dias com aquele ar infeliz de quem ficou atrás. O vendaval da emigração levara-lhes as raízes em imensos pássaros de metal; estavam agora assim, soltas como papéis sem asas, desses que voavam ao sabor da brisa até caírem irremediavelmente no fogo do abandono.

Observei tanto as mulheres que as vejo sempre, deleitado, em todas as ruas e locais por onde passo. Admiro a sua pele lanígera, sem fronteiras e sem cor, a silhueta resplandecente na metamorfose e na geografia confusa das cidades, tomando café nas esplanadas de Junho, saindo de lojas com embrulhos, por trás do tédio imenso de secretárias e balcões, ou afundadas nas páginas de um livro nos lugares mais inverosímeis. São elas, afinal, as lídimas protagonistas da poesia que lêem.

E no entanto, em qualquer língua, país e religião, elas tombam sob o punho insidioso da violência doméstica. É-lhes sonegado o prazer físico, maculando-o (como se o mesmo fosse um límpido exclusivo masculino), o direito ao ensino, à equidade salarial; servem e não são servidas; sufocam, ardem e minguam sob as obrigações domésticas mas não usufruem dos privilégios. Estão, enfim, subjugadas ao desvario machista e ancestral, que é, acima de tudo, uma deformação do carácter, o lado obscuro e inseguro de todo o homem que rilha os dentes e se intimida perante a sagacidade feminina, a inteligência, a competência, e a tão justa clamação pelos seus direitos.

Acima de tudo o amor não oprime, não inveja, não exclui, não ofende, não possui, não é ciumento, não julga, não coarcta o outro das suas potencialidades, não condiciona porque é abrangente e sublime. Antes liberta, apoia, eleva, acarinha, e, na sua pureza, promove um ideal de partilha e uma euforia de vida num universo de cortesia sem barreiras e sem complexos.

Até porque o amor é, além de tudo, a parte mais divina do Ser. Assim reconheço nelas, as mulheres, esta dádiva, esta peregrinação.