Um voo entre ilhas: a audácia de conquistar um espaço
[Armandina Maia]



Toda a poesia é uma ilha:
assim que a tocamos,
sentimo-nos órfãos das palavras



 

Desfio os versos de Eduardo Bettencourt Pinto com meticulosidade, como se desdobrasse uma toalha sobre o altar, cobrindo o espaço da madeira sagrada com a alvura do linho imaculado, onde cada fio fala dos antigos ritos que a teceram.

Afasto-me para olhar a simetria, que deverá ser perfeita: o altar ergue-se acima dos meus olhos como uma tela, debruado por uma moldura de renda que delimita o espaço da obra de arte.

Tenho a sensação que sempre ali esteve aquele pano precioso, tratado embora com familiaridade, sobre a mesa, nos lençóis das camas mais humildes, do mesmo modo que tenho a sensação de conhecer a poesia de Eduardo Bettencourt Pinto desde os primeiros passos na minha memória poética.

São muitos os passos do autor, que atravessam o lugar em que se edificam os textos, passos de errâncias, de retorno, de migrações, ou tão-só passos em volta, até alisar a pedra, a pedra antiquíssima, para apaziguar a cicatriz instalada na memória de quem os escreveu.

Vem de longe este homem, de “querer bipartido”, na sua luta pela preservação das origens, onde a infância é mantida como território intacto, sabendo embora que uma parte de si permanece resignada, numa lassidão aparentemente longe da memória vivificadora, como diz em Tango nos pátios do sul1:

Ele quer trazer da infância as primeiras palavras, as que vêm dos rios do sul. Mas em si há um homem deitado numa rede, entre duas palmeiras, e o cão da melancolia a lamber-lhe as mãos.(T.P.S., 13)

Se me perguntassem de onde chegou esta voz, diria que ela tem a sonoridade do sul e a gravidade do solo. Uma voz da terra, que nunca se distancia do mar, esta é uma das fundamentais dualidades que se reflectem na sua poesia.

Uma voz de artesão, que mesmo baloiçando na rede em que está deitado, lapida o verso e, com a sabedoria de quem aprendeu a espera, volta ao princípio para o refazer constantemente, de poema em poema, de livro em livro, tentando esgotar as possibilidades de o transformar numa obra perfeita, perante a enorme imperfeição do mundo que se adivinha por detrás das palavras ditas.

Em Menina da Água2, o texto central desta análise, os gestos que pertencem a esta voz evidenciam ao longo de todo o texto uma grande proximidade com os rituais bíblicos:

Lavarei os pés nesses degraus, íntimas feridas.
Fatigado pelo nevoeiro de errâncias
descanso por fim no regresso inicial. (M.A
., 20)

Então vinhas. Chegavas-te ao teu irmão,
e nos teus olhos enublados mostravas-lhe um templo
secreto. (M.A.
, 33)

Se as opções imagéticas se mostram fortemente impregnadas desta lição, são inúmeras as opções semânticas que denunciam a mesma origem: “o doce néctar das maçãs”, mãos dos anjos”, “altas sementes”, (M.A.,17) “pombas brancas das tuas palavras”(M.A.,8), “colhendo nos cânticos do silêncio a cor do mundo” (M.A., 24), “o milho nascia/ nos cânticos das crianças (M.A., 34), Milho debulhado sob cânticos (M.A., 18) “o lume que fazia o pão da pobreza” (M.A., 25), “o cheiro do pão escasso ardia (M.A., 33), Se tocares o basalto sentirás/ no sangue um bando/ de pombos bravos (M.A., 41).

A fractura do caminho bifurcado está permanentemente presente na obra de Eduardo Bettencourt Pinto, pelo que a ordenação do texto em dois campos semânticos quase contraditórios, aparece como inevitável e natural.

Por um lado, podemos recolher-nos sob o tecto deste homem, que nos protege no seu território, onde a memória exerce uma função tutelar, desde o berço ao túmulo «Há um momento, na nossa vida, em que nascemos na memória» (M.A., 12). Neste percurso, o momento mais redentor é o da infância «Nesse espaço, a música era toda a infância» (M.A.,18)

Venho aqui
em busca dessa infância.

Uma ilha foi sempre
A minha vida (M.A
., 52)

Não é pois de surpreender que nos deparemos no texto com uma inteira multidão de vocábulos que nos remetem precisamente para o lugar da infância: «Falo das origens,/ duma pedra abandonada na infância” (M.A., 42).

São de valor iniciático todas as palavras que criam este ambiente: na liberdade sugerida pelos grandes espaços abertos - escarpas, ravinas, enseadas, colinas, o vento e o ar povoado de aves, pombos e pombas brancos, gaivotas, melros, borboletas, a terra com os «seus inaudíveis segredos», segredos ciciados, coberta de árvores, flores e frutos – eucaliptos, loendros, choupos, jacintos, hortênsias, rosas, cíclames, margaridas, anémonas, maçãs, amoras brancas e selvagens, e ainda aliada aos espaços “nobres” dos terraços e dos pátios, e aos materiais puros – barro, pedra, móveis esparsos, sarja, cal «a velhíssima cal», muros, raiz «branca raiz da claridade», mar, ilha, águas brancas e azuis.

As inúmeras ocorrências registadas neste campo semântico, quase provoca uma sensação de saturação, o que nos obriga a olhá-los nos diferentes contextos transformadores, diferenciadores e até antitéticos: “velhíssima cal de antigos dias”(32) - “crepitar da cal”--, “a aridez felina das maçãs” (23) - “o doce néctar das maçãs”, “música (que) faz crescer” (30) - “música subterrânea” (31), “anjos de pedra” - “anjos de água”(17), “ muros brancos”(23) -“caídos muros”.

Por outro lado, é inevitável que os imaginemos como peças fundamentais dos ritos consagradores de uma geografia rural, íntima, caseira e, sobretudo de um enorme despojamento e simplicidade, coincidentes com a postura do autor.

Sobre o mar, escondido nestas palavras, há o volume branco das casas nordestinas, a passagem alta das aves, o olhar de relance que retém o prodígio, a fragrância e a dorida alegria das suas gentes. Aqui me sento à mesa dos seus ritos, cumprindo o dever e o abalo rasgado da poesia. Não conheço outro mundo se não este que se ergue do verbo, rente à terra, bordeado de água, tão breve, no entanto toda a minha vida. (M. A. 12,13 )

Simultaneamente, sentimos estes ritos ameaçados por uma desordem que perturba o autor, e que o leva incessantemente, a atravessar o mundo, em busca do espaço fundador, onde o seu reino possa finalmente ter lugar:, «entre fundações de luz bebo o descanso e o grito mais agreste dos choupos do vento», “desço aos moinhos — uma voz nasceu nestas águas” (M.A., 18).

Estes temores e fragilidades erguem-se a partir de um campo imagético com o poder fortíssimo da antítese, que, aqui colocada, nos dá bem a dimensão da angústia calada no mais fundo do poema.

São três os principais eixos em torno dos quais estes sentimentos se desenvolvem: morte, distância, ausência: “tudo parte: os vultos distantes/ dos teus mortos, /a tia que enxotava borboletas no retrato,/a primeira carta americana.” (37); “e perguntas/ o que é a distância.// Não posso responder ao eco do meu próprio nome.”(37); “Eu existia na ausência do teu nome, buscando-te/ nos poemas de Neruda como um náufrago (36).

Evidentemente, o lado obscuro está amplamente representado, capaz de enfrentar a doçura e a força do lado solar:

“Chego aqui com muito pouco: a sede da terra/ nos dedos. A noite, como um trapo, tomba/nos passos(19), Corriam lágrimas/sobre as pétalas murchas do silêncio(21), Dois pássaros cruzaram / o milheiral fugindo da morte (21), Procuravas na figueira os frutos mordidos/pela lua (...) Mas eram melros, escondidos/ nos bolsos dos espantalhos, um remexer/ de sombras/no outro lado da luz. Um cheiro a solidão crescia entre as pedras solares (26), Pelo corpo passa(...)/o duro ar da saudade, essência que deslumbra, fere, (32) estrelas afugentadas dum céu menor (33), a triste música das pedras erguendo/contra os templos altos, inumeráveis muros/de lamentações. (34)

O poema apresenta-se, como uma busca incessante por entre frinchas, fissuras, fendas, sulcos, capazes de abrir caminho à reconstrução desta ausência. «Há muitos anos que persigo a eterna infatigável coroação das ausências».

Nas suas sucessivas paragens, indagações e ou reflexões, entrevemos um registo autobiográfico, que nos conduziria à conclusão de que o autor se busca a si próprio na ausência de si, e/ou da “menina de água”.

“Menina de água - por ela corri ao encontro do meu rosto”, é uma das frases que subtilmente nos fala desta necessidade, mas outras há mais claras: “Descalço-me frente às últimas palavras./ Junto-as, achas ardentes./ Por ela passam gaivotas famintas./Oiço um cão roer sons ininteligíveis, distante. /a branca parede da memória aprisiona-me.” (57); “Vivo, passo e nasço a cada instante/ e não me demoro:/ respiro um tempo que já morreu. (...) Estou de passagem, já disse.” (57) Entre mim e mim há um tinir de espadas” (59).

O luto da infância vivida projecta-se no luto da infância não vivida da menina da água. «A felicidade é a ardência sempre viva dum paraíso perdido e em constante recuperação: a infância, a nossa, e a outra, mitológica» (M.A.,12).

A dimensão deste drama leva o autor a instaurar um diálogo com a Menina da Água, muito próximo do monólogo, tal é a unidade funda que os une: “Vou descalça na luz da alma que sou./Nunca durmo. Trago sementes de água/nos olhos e só estou quando amo”(53) Venho a esta terra no regresso duma saudade./Trago no amor um jacinto fresco para o nome/ duma criança.(17), É isso que busco: a aridez felina das maçãs, /(...) essa tão inocente idade de plantar no vento/amoras brancas/ e selvagens. (23), Pedra a pedra a voz duma menina/ voa sobre o orvalho dos frutos. (25) Se falasse/ das suas mãos diria/ que afagam o adeus/ do olhar que fica. (29).

O olhar de quem fica edifica assim um roteiro possível para a (sobre)vivência daquela ausência. «Na voz dessa criança nunca a ilha esteve tão perto do mar» (65). A lembrança das palavras ditas «Pelo olhar se retorna à ilha, dizes.». «Eles não sabem que uma ilha começa na nostalgia/de quem arde contra a noite com saudades do mar» (21). A estas falas da Menina, encontramos uma resposta que se erige com uma enorme força moral, elemento que se constitui, aliás, como um dos principais motivos da atracção que esta poesia exerce sobre nós.

Dá às palavras a infância da água, o jardim de pedra
onde o grito se enrola nas lágrimas como a tarde
enobrece o agitado coração das oliveiras.
Nunca a fátua conivência da gravata, o sorriso ilustre
dos faquistas e dos traidores do coração...
(62)

«Esta poesia, plantada aqui como um canteiro de verão, é uma recusa à fatalidade» (M.A, 12) «Escrevo para que oiças um piano.». (M.A.,61)

É portanto o elo de um «nós» que se revela como alimento necessário para atenuar o sofrimento da perda. Um nós que parece instalar-se, para sua protecção, no território da ilha, uterina e redentora: E tu, / nascendo da ilha/ e dos voos do olhar, /jardim das estações./ Do lume e de ti nunca, nunca se aparta/ a primavera. (M.A., 42).

Levarás para sempre a ilha escondida
no silêncio
da voz.

Só eu a desperto, reconheço e amo.
(...)
Como tu,
perco-me na distância
quando cantas
. (54)

E a rematar, com firmeza invulgar na globalidade do texto:Essa ilha/ que nunca deixaste morrer na saudade,/regressa sempre ao poema:/ cheia de margaridas,/uma gaivota poisada/ entre as palavras e o branco/rumor do mar.

Passo a passo, de distância em distância, o elo partido parece ter-se recuperado na sua inteireza. Efectivamente, no último livro publicado, Um dia qualquer em junho3, E. B. P. fala-nos como um homem próximo da serenidade, como se tivesse encontrado a resposta necessária e urgente, ao doloroso monodiálogo apresentado em Menina da Água. Essa serenidade e firmeza, vivamente contrastantes com tom da Menina da Água, estão bem expressas no lugar de aconchego que ele nos descreve no poema curiosamente intitulado “Residência”4 :

Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mãos levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
Um homem que ama nas sombras o fulgor e as essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria, dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.

Não podes morrer contra o sonho contando as lágrimas,
a face reflectida nos espelhos da alma.

Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os templos da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.

Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras.

Volto à minha toalha de altar, que desdobro com a obsessão de rigor que impregna o trabalho de Eduardo Bettencourt Pinto. Analiso à lupa esta afirmação, pois grande seria o erro de ser fútil ou vão com as palavras: a própria austeridade desta poesia exige uma atenção redobrada ao falar dela.

Aliás, a raridade da poesia escrita por E. B. P. começa logo por se evidenciar pelo modo quase desprendido com que ele a solta no papel, não obstante, desde os primeiros instantes, tenhamos a percepção de nos encontrar perante uma obra tão límpida e bela, que nos faz remontar à primeira poesia dos mestres, sobretudo Eugénio de Andrade e Sophia Mello Breyner, que ergueram tons de manhãs claras na poesia portuguesa de hoje.

Sendo o lugar de Eduardo Bettencourt Pinto indubitavelmente entre eles, resta-nos esperar que as teias do nosso pecaminoso e quotidiano esquecimento, não a deixem morrer sozinha na ilha onde nasceu. Isto por que a voz dos poetas, não é, felizmente, e ao contrário do que se possa pensar, um acto de geração espontânea.


1 Eduardo Bettencourt Pinto, Tango nos pátios do sul, /Cântico nos pátios do sul, Seixo Publishers, Pitt Meadows, 1999.
2 Eduardo Bettencourt Pinto, Menina da Água, Editorial Éter, Ponta Delgada, 1997.
3 Eduardo Bettencourt Pinto, Um dia qualquer em junho, Edições Instituto Camões, Colecção lusófona, Lisboa, Maio de 2000.
4 Idem, p.25.