POEIRAS de POESIA
[AIDA BAPTISTA ]


De regresso a Portugal, em 1975, no período que se seguiu à Guerra Civil em Angola, carregando nas costas o epíteto nada abonatório na época de “retornada”, a minha família espalhou-se por vários espaços do rectângulo continental, fruto de acasos que não cabem no âmbito desta crónica. Os meus pais, ainda com sete filhos menores, outra opção não tiveram senão voltar à aldeia de partida. Foi chegar num dia e meterem-nos num comboio, no outro, que famílias numerosas não cabem em pequenos apartamentos de Lisboa. E lá se instalaram na serrania beirã, quase a roçar as fronteiras transmontanas. O telefone constituía ainda um luxo a que nem todos tinham acesso. Quem conheceu o Portugal de então, recorda perfeitamente o símbolo do cavalinho por cima das tabernas, anunciando um posto dos CTT com telefone público. Em tempos de solidariedades vividas e partilhadas, mesmo quando a aldeia tinha uma configuração longitudinal, havia sempre um gaiato que a calcorreava, para ir chamar uma qualquer ti Maria ou ti Manel, mesmo que morasse  na ponta do cabeço, à coca de um centavo que pudesse cair pelo favor prestado. Afastados que estávamos dos meus pais, pedimos-lhes que instalassem telefone em casa, portadores que éramos já de hábitos ainda não generalizados por aquelas bandas. Acederam ao nosso pedido, mas nunca mais esqueci as palavras da minha mãe:

- Filha, pôr telefone em casa foi a maior asneira que fizemos!

Entendem a minha estupefacção, eu que pensava estar a contribuir para a nossa aproximação, para o encurtar de distâncias, enfim, todas estas coisas que o progresso diz que traz. Mas a resposta de minha mãe, uma mulher simples a quem a vida ilustrou apenas com quatro anos de escolaridade, veio carregada da mais cândida filosofia:

- É que agora, vocês já não escrevem e era tão bom ler as vossas cartas! E agora, eu também já não vos escrevo, vocês sabem as novidades todas por telefone!

Ela, que toda a vida foi doméstica, criou doze filhos, quando lhe disse que ia trabalhar como leitora para a Finlândia, sem nada perceber de geografia, apenas me soube dizer: “Mas isso é tão longe, minha filha”! Será que o nome Finlândia, por si só, lhe sugeria “o fim”, o longínquo, que é tudo quanto está para além do horizonte que o seu quotidiano abarcava? Nunca cheguei a sabê-lo. Morreu antes de eu partir. Não chegou, por isso, a ouvir falar desta nova era de comunicações em que o correio electrónico recuperou a escrita, atolados que estamos em torrentes de mensagens todos os dias.

Vem tudo a propósito de uma crónica de Onésimo Teotónio de Almeida, lida há algum tempo, em que este refere alguns dos e-mails recebidos como pequenos pedaços de prosa literária. Onésimo reproduz alguns mas a memória não me devolve o nome do autor. Não sou pessoa dada a apostas mas, depois de ter tido o privilégio de conhecer o Eduardo Bettencourt Pinto, arriscaria a afirmar que o Eduardo é seguramente o autor de muitos deles. Como é que cheguei a esta brilhante conclusão? Muito simplesmente depois de ter assistido à sessão de autógrafos que ocorreu após o lançamento dos seus livros na Universidade de Toronto.

Todos nós, quando vamos a estes eventos, fazemos questão de levar não só o livro, mas arrancar ao autor mais um pedaço da sua alma – o autógrafo. E agora, os escritores que me perdoem, isto não é uma crítica. A maioria deles, depois do nome da pessoa, remata com uma daquelas frases feitas, com se fosse um qualquer chefe de gabinete a despachar circulares de uma assentada. Não lhes podemos levar a mal, porque intimidades só se devem ter com quem se conhece. Contudo, não é isso que o Eduardo faz. Sob aquela humildade que o veste como uma segunda pele, ele, pacientemente, elabora textos diferentes como quem tece filigranas de afectos. Uma ex-aluna de português mostrou-me o seu, exclamando em saltos de contentamento: “Look at this! It’s so nice!”. E era, de facto.

Poupei o autor ao sacrifício de autografar os meus naquela altura. As regras mandam-nos dar a primazia aos que vêm de fora. Só lho pedi, depois de jantarmos. Permita-me o autor que publicite um deles: “... a memória de um momento de água, a vida flutuante que a poesia nos dá...”. Eduardo, isto não é um autógrafo, é poesia, prosa poética (como queira chamar-lhe), é “o cantar da cortesia e do coração”, como escreveu num outro. Junto mais uns que tive a oportunidade de ler:

 “... os pássaros de Junho e uma sombra do tempo”;

 “... com a surpresa e o encanto de a redescobrir nesta cidade, provando que tudo o que acontece na vida viaja em círculo”;

“... com uma acácia e uma hortênsia”;

“... que também ouve o mar na nostalgia dos dias e na cor da alegria sobre o mais breve azul do silêncio”;

“... os Açores. Nestas ilhas aprendi a caminhar dentro das palavras, nestas que aqui deixo e por onde passa já uma gaivota”;

“... este rumor de águas, a infância tão feliz da alegria pelos Açores que tanto amo”;

“...seguindo pássaros nos altos jardins da idade, aqui em Toronto, já no outono da cidade, aos esquilos, a tudo quanto fica e não soçobra, de alegria tanta”.

Eduardo, não se espante, se um dia destes alguém tiver a luminosa ideia de pegar no que anda a espalhar pelos seus livros, e se lembrar de fazer uma recolha dos seus autógrafos e publicá-los. Aperceber-se-á, então, de que andou a espalhar poeiras de poesia por onde passou, sem se dar conta disso. Como disse Bion “a beleza é um proveito para todos” e sê-lo-á tanto mais quanto se tratar da beleza das palavras com que nos presenteou.