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POEIRAS
de POESIA
- Filha, pôr telefone em casa foi a maior asneira que fizemos! Entendem a minha estupefacção, eu que pensava estar a contribuir para a nossa aproximação, para o encurtar de distâncias, enfim, todas estas coisas que o progresso diz que traz. Mas a resposta de minha mãe, uma mulher simples a quem a vida ilustrou apenas com quatro anos de escolaridade, veio carregada da mais cândida filosofia: - É que agora, vocês já não escrevem e era tão bom ler as vossas cartas! E agora, eu também já não vos escrevo, vocês sabem as novidades todas por telefone! Ela, que toda a vida foi doméstica, criou doze filhos, quando lhe disse que ia trabalhar como leitora para a Finlândia, sem nada perceber de geografia, apenas me soube dizer: “Mas isso é tão longe, minha filha”! Será que o nome Finlândia, por si só, lhe sugeria “o fim”, o longínquo, que é tudo quanto está para além do horizonte que o seu quotidiano abarcava? Nunca cheguei a sabê-lo. Morreu antes de eu partir. Não chegou, por isso, a ouvir falar desta nova era de comunicações em que o correio electrónico recuperou a escrita, atolados que estamos em torrentes de mensagens todos os dias. Vem tudo a propósito de uma crónica de Onésimo Teotónio de Almeida, lida há algum tempo, em que este refere alguns dos e-mails recebidos como pequenos pedaços de prosa literária. Onésimo reproduz alguns mas a memória não me devolve o nome do autor. Não sou pessoa dada a apostas mas, depois de ter tido o privilégio de conhecer o Eduardo Bettencourt Pinto, arriscaria a afirmar que o Eduardo é seguramente o autor de muitos deles. Como é que cheguei a esta brilhante conclusão? Muito simplesmente depois de ter assistido à sessão de autógrafos que ocorreu após o lançamento dos seus livros na Universidade de Toronto. Todos nós, quando vamos a estes eventos, fazemos questão de levar não só o livro, mas arrancar ao autor mais um pedaço da sua alma – o autógrafo. E agora, os escritores que me perdoem, isto não é uma crítica. A maioria deles, depois do nome da pessoa, remata com uma daquelas frases feitas, com se fosse um qualquer chefe de gabinete a despachar circulares de uma assentada. Não lhes podemos levar a mal, porque intimidades só se devem ter com quem se conhece. Contudo, não é isso que o Eduardo faz. Sob aquela humildade que o veste como uma segunda pele, ele, pacientemente, elabora textos diferentes como quem tece filigranas de afectos. Uma ex-aluna de português mostrou-me o seu, exclamando em saltos de contentamento: “Look at this! It’s so nice!”. E era, de facto. Poupei o autor ao sacrifício de autografar os meus naquela altura. As regras mandam-nos dar a primazia aos que vêm de fora. Só lho pedi, depois de jantarmos. Permita-me o autor que publicite um deles: “... a memória de um momento de água, a vida flutuante que a poesia nos dá...”. Eduardo, isto não é um autógrafo, é poesia, prosa poética (como queira chamar-lhe), é “o cantar da cortesia e do coração”, como escreveu num outro. Junto mais uns que tive a oportunidade de ler: “... os pássaros de Junho e uma sombra do tempo”; “... com a surpresa e o encanto de a redescobrir nesta cidade, provando que tudo o que acontece na vida viaja em círculo”; “... com uma acácia e uma hortênsia”; “... que também ouve o mar na nostalgia dos dias e na cor da alegria sobre o mais breve azul do silêncio”; “... os Açores. Nestas ilhas aprendi a caminhar dentro das palavras, nestas que aqui deixo e por onde passa já uma gaivota”; “... este rumor de águas, a infância tão feliz da alegria pelos Açores que tanto amo”; “...seguindo pássaros nos altos jardins da idade, aqui em Toronto, já no outono da cidade, aos esquilos, a tudo quanto fica e não soçobra, de alegria tanta”. Eduardo, não se espante, se um dia destes alguém tiver a luminosa ideia de pegar no que anda a espalhar pelos seus livros, e se lembrar de fazer uma recolha dos seus autógrafos e publicá-los. Aperceber-se-á, então, de que andou a espalhar poeiras de poesia por onde passou, sem se dar conta disso. Como disse Bion “a beleza é um proveito para todos” e sê-lo-á tanto mais quanto se tratar da beleza das palavras com que nos presenteou. |