A cor da minha terra
©[Eduardo Bettencourt Pinto]




Você de onde é? Brasil, não?

A minha pronúncia gera por vezes destas confusões. Respondo que sou angolano. Gabela é, será sempre, a minha terra e Angola a árvore perante a qual me ajoelho e choro. Não rejeito as minhas cinzas. Nem mesmo nos momentos mais bizarros.

O taxista que, certa vez, me levava do aeroporto da Portela ao hotel, não gostava de africanos. Dos mais escuros, claro.

  — Veja-me lá esses filhos da p... dos angolanos! —  disse, empertigado, olhando para mim através do retrovisor. — A selecção de Angola leva uma goleada e os cabrões desatam à porrada, sem mais nem menos! E ainda se riem por cima!

Não sabia o que lhe dizer. As multidões poderão tornar-se irracionais, em qualquer parte. Não é particularidade de um povo. Veja-se o caso dos hooligans ingleses. Até inspiraram um jogo de computador cujo lema, muito filosófico, é assim: The only thing to fear, is running out of beer/ A única coisa a recear é ficar sem cerveja. Muito profundo. Rufias endinheirados, deslocam-se com relativa facilidade para qualquer lado. Embebedam-se, partem garrafas de cerveja, envolvem-se à pancada, matam ou originam mortes. Alguns têm até cadastro internacional.

No Japão, recentemente, um deles tentou entrar à socapa e foi recambiado logo a seguir. Para os angolanos, suponho, ver a selecção nacional levar uma coça dos portugueses foi bico-de-obra. Os nervos explodiram, os traumas subiram à superfície, a irracionalidade. Mas os excessos de alguns não caracterizam a postura e a civilidade da maioria. Estaríamos todos mal se assim fosse.

Se eu vivesse em Lisboa nem aparecia lá. As multidões irritam-me. E, diga-se a verdade, um jogo, qualquer jogo, não passa disso mesmo.

Eu e a minha mulher estávamos em Paris aquando da final do Euro 2000. A Trish e o Jim, nossos amigos do Canadá, queriam ver o jogo. Tínhamos chegado nesse dia do Sul de França, onde o Sol brilhava, a uma cidade escurecida pelas chuvas. Por que não? Reservámos a mesa do jantar junto de um televisor enorme num restaurante a poucos quarteirões do nosso hotel. Foi uma noite memorável até certo ponto.

Do lado de fora, um grupo de italianos vibrava, a todos os pulmões, com os golos da sua equipa. Os franceses, mais comedidos, regozijavam com menos calor. Só nos últimos momentos da final, com a vitória francesa, é que se levantou uma nuvem de braços e o restaurante explodiu numa apoteose.

Fomos depois, a pé, aos Campos Eliseus. Nunca vi tanta gente junta: era um formigueiro negro, incontrolável, que crescia com excitação a cada segundo. O Jim empolgava. Eu nem tanto —  pressentia sarilhos. Os idiotas aproveitam-se sempre de situações assim para extravasarem o seu primitivismo.

No regresso ao hotel, já a polícia, espalhada por todo o lado, se ocupava, frenética, em manter a ordem. Uma mulher, que atravessou a rua no momento em que um condutor desvairado passava, foi colhida mortalmente momentos antes de passarmos no local. A noite, até ali magnífica, deixou de fazer sentido.

Os jornais, na manhã seguinte, deram testemunho dos excessos praticados: montras partidas, carros danificados por vândalos, gente no hospital e na casa mortuária. Uma vitória no futebol justificava tamanha loucura? Claro que não.

Pensava nisso enquanto o carro rolava na noite de Lisboa. Eu compreendia a frustração do motorista do táxi. Mas não encaixava bem a conotação que tentava imprimir aos angolanos. Sentia-me cansado, tinha sono, apetecia-me na verdade a frescura de um banho e afundar-me sob os lençóis.

Eu também sou angolano — disse-lhe por fim.

Houve um breve silêncio. Quase lhe percebi os pensamentos: «Por que será que este homem se quer associar a arruaceiros?»

Descíamos a Avenida da Liberdade. Vi os seus olhos crescerem no retrovisor e faiscarem no escuro. Eram duas órbitas muito rubras, dois pirilampos perdidos no espelho em busca do meu rosto.

Mas o senhor é branco! — disse, defensivo.

Ser branco não é garantia de ser honesto, caro senhor. Dos poucos políticos que respeito e admiro, Nelson Mandela encabeça a lista.

Mas esse homem é outra coisa, amigo! Não comparemos alhos com bugalhos!

Não valia a pena discutir. Ele queria ter razão. Nem mesmo que tivesse de se contradizer até à eternidade.

Ao sair do táxi, a noite pareceu-me subitamente mais leve.