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A
manhã dos anjos ©[Eduardo Bettencourt Pinto]
As
if you could kill time without injuring eternity
Duas pregas de espanto na testa, a mão em pala protegendo os olhos do sol. Depois, encostando o nariz ao vidro da janela, pôs-se a mirar, como se suspenso de dúvida, quem se dirigia à porta de entrada. «Dean, é o Dean!» gritou. A claridade da manhã rutilou na sua face direita, quando se virou para mim com a nova. Desatou logo a correr pela casa fora. Desceu as escadas num ápice. A porta abriu-se e ouvi passos miúdos pela casa adentro. Dois pares de pernas pequeninas, em velocidade de infância que não suporta esperar, dirigiram-se ao meu espaço. A minha manhã de Agosto, até ali fechada numa redoma de quietação, deixara de o ser. Pouco depois, o Fábio e o amigo, agarrados aos controlos do PlayStation esmurravam-se um ao outro através dos bonecos do jogo. Peguei no livro e fui para a varanda. A minha indulgência perante ruídos estranhos é mínima. Sobretudo se estes, repetitivos até à medula da paciência, me atiram inflexões histéricas aos ouvidos. A varanda é alta. Fica da rua a uma distância razoável. Se os olhares, com suas asas curiosas, quisessem voar até onde eu estava, esbarravam nos vidros fumados e nos ramos das árvores do meu recolhimento. Luanda, com os gradeamentos de ferro forjado aferrolhando as casas à impertinência da rua e ao invariável gatuno, deixou as suas marcas. E a guerra. Já no fim do sonho por uma pátria angolana, habituou-me a cerrar as cortinas à noite, a desconfiar de quem bate à porta. Naquela altura, a transferência do medo para um estado de submissão emocional era um risco pelo qual todos passavam. O caos cria regras e códigos labirínticos. O passado, que é apenas a quilometragem da nossa passagem pelo calendário da vida, somos nós, hoje, feitos espelhos do Tempo. É um casaco velho, descolorido pelas chuvas, pesado com o pó da memória, que nos impede os movimentos mais súbitos, nos tira a elasticidade dos dias em que abríamos os braços e enredávamos o mundo. Agora a mão que avança para descascar a laranja ou trazer à boca o copo de água vai mais devagar, rendida ao aperto do tecido da idade. Enquanto os meninos brincavam, alheios à vertigem dos meus pensamentos, voltava ao princípio de mim. À introspecção necessária para descodificar fantasmas, restos de luz caídos sobre as coisas, sons, rostos, vozes, sentimentos. O que eu sou vem de trás, de um vasto útero vivencial. De África, do mar que num outro local disse nascer nos Açores. «Somos, ao fim e ao cabo, as várias idades do tempo que nos coube» escreveu recentemente, numa coluna de jornal, o escritor Dinis Machado(1). Elie Wiesel(2), em relação à memória, diz: «A minha maior preocupação é o reino da memória. Eu quero proteger e enriquecer esse reino, glorificá-lo e servi-lo.» No seu caso particular, era (e é) imperativo histórico e da consciência resgatar das cinzas as mais dolorosas experiências, que foram o extermínio de uma comunidade, da família e de um tempo nunca mais recuperável. Quer sob o ponto de vista estético e físico de um lugar, quer, e sobretudo, emocional. Viajando
por França recentemente com a minha mulher, senti uma
estranha e profunda ligação com o país. Parecia-me
que algo de mim, ecoando dos genes, me transmitia um secreto código.
A telúrica e fulminante linguagem da paisagem entrava-me pelos
olhos com a ternura de um afago. Mas o que ficava repercutia como um
cântico, uma chamada. Como se a transcendência do tempo
não tivesse esfarelado nos meus sentidos uma afinidade submergida
com o desaparecimento dos meus antepassados maternos, dali originários.
Por isso era a Normandia uma espécie de retorno parcial às
origens pois foi dali que vieram os Bettencourt. Espalharam-se depois
por Portugal, Brasil e América do Norte. Seguiram-se-lhes gerações
intermináveis. Esses inquebráveis ramos foram-se enxertando
aqui e ali num vasto e diverso pomar de vozes. (1). Jornal de Notícias, Lisboa, 20.08.2000 (2) . Escritor romeno de origem judaica e naturalizado americano , do qual saliento o livro Night, pequena narrativa biográfica na qual relata os horrores por que passou, bem como a sua família , às mãos dos nazis. |